‘Toca pau’, disse ex-secretário preso sobre contratações emergenciais na saúde do Rio

RIO — Trocas de mensagens entre o ex-secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, e o ex-subsecretário Gabriell Neves, ambos presos acusados de fraudes em compras emergenciais durante a pandemia do coronavírus, mostram que os dois podem ter direcionado as contratações, antes da publicação dos editais públicos. As conversas, divulgadas pelo RJTV da Rede Globo, revelam que, no dia da publicação do decreto que deixou o Rio em estado de calamidade pública, Edmar Santos orientou Neves a realizar as contratações.

“Decreto publicará hoje. Toca Pau”, escreveu o ex-secretário. Gabriell, então, passa a enviar ao titular da pasta mensagens corriqueiras, muitas envolvendo o andamento das compras que seriam feitas para abastecer hospitais e unidades de saúde.

A construção de hospitais de campanha é outro tema que aparece nas conversas. No dia 12 de março, Gabriell informou a Edmar que havia agendado com uma empresa para tratar do tema. Porém, a publicação do edital que tornaria público o chamamento de mercado só aconteceu duas semanas depois. “Esses caras conseguem construir um hospital em um mês, se precisarmos (depois do medo que você me colocou de manhã, até nisso eu estou pensando)”, escreveu Gabriell para Edmar, após enviar um documento eletrônico. De sete hospitais de campanha planejados, apenas dois estão em funcionamento, no Maracanã e em São Gonçalo.

Hospitais de campanha: “Padrão alto”

Dias depois, Gabriell afirma que a empresa, mesmo antes da abertura do processo administrativo, já havia sinalizado que o tamanho do terreno para as unidades de saúde (hospitais de campanha) era suficiente. Edmar cita duas empresas que poderiam construí-los, entre elas uma que era responsável pela unidade do Pacaembu, em São Paulo. Gabriell responde para o chefe: “Acho que os hospitais vão ser um golaço. O padrão deles é alto”. Logo depois o ex-secretário diz: “Precisa é começar a montar. Política”.

No dia anterior à abertura do processo de contratação da empresa que construiria os hospitais de campanha, Edmar encaminhou ao então subsecretário o documento “Proposta Hospital de Campanha”. Gabriell diz: “Veio em nome do Iabas. E no plano de execução apresentam a parceira que é a empresa de São Paulo”. Dois dias após a publicação do edital, Gabriell afirma já ter combinado a compra de respiradores mecânicos com o Iabas: “Consegui mais 100 ventiladores agora”. O edital dessa aquisição, de acordo com o RJTV, só foi divulgado depois.

Dois dias após a publicação do edital, Neves afirma já ter combinado a compra de respiradores mecânicos com o Iabas:

“Consegui mais 100 ventiladores agora. Roberto vai comprar pelo Iabas, vou pagar pra ele como investimento e requisitar os aparelhos para gestão da SES. Chega até quinta-feira. Acho que nosso planejamento está começando a se concretizar”.

Outra troca de mensagens envolvendo a compra de respiradores mostra que Gabriell Neves negociava outra compra antes mesmo da abertura do processo para tal. No início do março, ele conta a Edmar Santos que já estava tratando com duas empresas para a aquisição de respiradores, inclusive já havia obtido o orçamento de cada uma.

Em outro trecho, indica que era Edmar a bater o martelo sobre que empresa a secretaria realizava os contratos

“Me aguarde definir qual teste comorae (sic). Muitas indicações”.

Os altos valores das contratações também foram tema da conversa entre os dois. No dia 22 de março, Neves se demonstra preocupado com o orçamento gasto:

“Estou preocupado com o $ (sic). Não sei se já falou com o Governador, mas acho que temos que nos resguardar desde já”.

Procurada pelo “RJTV”, a defesa de Edmar Santos disse que não irá se manifestar. A SES afirma que está revisando os contratos e mais de 30 servidores da antiga gestão já foram exonerados. O IABAS não respondeu e o RJTV não conseguiu contato com a defesa de Gabriell Neves.

O Globo*

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