20/07/2026
Economia

Carros elétricos chineses disparam no Brasil e derrubam preços de novos e usados

Fábrica da BYD, na Bahia, teve prorrogação em cota de importação de kits pré-fabricados da China — Foto: Joá Souza/GOVBA
Fábrica da BYD, na Bahia, teve prorrogação em cota de importação de kits pré-fabricados da China — Foto: Joá Souza/GOVBA

Por Caroline Nunes e Julia Fernandes* — O Globo

O Brasil praticamente dobrou a importação de automóveis da China no primeiro semestre deste ano. Foram 140,8 mil emplacamentos — contra 71 mil no mesmo período de 2025 — de veículos vindos do país asiático, segundo levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

As vendas de montadoras chinesas que fabricam no Brasil, como GWM e BYD, dispararam na mesma proporção.

As marcas chinesas conquistam mais brasileiros principalmente com carros eletrificados a preços competitivos e a promessa de economia no combustível. As montadoras tradicionais decidiram reagir e estão provocando um efeito dominó nos preços de automóveis novos e usados no país, abrindo uma oportunidade para os consumidores em um setor em alta nos últimos anos.

Para competir com os chineses, fabricantes nacionais e concessionárias ampliaram descontos neste mês e passaram a oferecer bônus generosos na troca de usados por modelos zero-quilômetro, forçando movimento similar nas lojas de seminovos, como são chamados os carros com até três anos de uso e baixa quilometragem.

Com os preços dos novos se aproximando de suas tabelas, as revendedoras começaram a perder clientes e encher pátios e também aderiram à temporada de descontos. Em lojas percorridas pelo GLOBO no Rio, há muitos modelos, principalmente os SUVs, à venda abaixo da Tabela Fipe, que aponta o valor médio de mercado dos usados.

A Toyota, por exemplo, oferece bônus de até R$ 40 mil na troca de um usado por alguns de seus carros zero. No caso do Yaris Cross XR, um modelo novo cujo preço caiu de R$ 149.990 para R$ 139.900 neste mês, esse bônus é de R$ 10 mil. Na prática, quem tem um carro avaliado em R$ 20 mil, por exemplo, pode ter R$ 30 mil de crédito na compra do novo, que sai por R$ 109.900.

A marca japonesa, que tem fábricas em Minas e São Paulo, admite, em nota, que resolveu oferecer “condições competitivas” aos clientes em resposta à “entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade”.

Outras montadoras seguem essa trilha. A Honda tem bônus de até R$ 15 mil na troca de um usado, mas não informou a motivação. A Volkswagen cortou em cerca de R$ 10 mil o preço do T-Cross e informou que iniciou o seu “Feirão dos Feirões Volks Vale+”.

Já a Fiat, da Stellantis, além de bônus na troca, cortou o preço do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990. A montadora diz que é parte das comemorações dos 50 anos da marca italiana no Brasil, mas destacou que está “sempre atenta às variações no cenário” para definir preços.

Ofensiva chinesa preocupa

As tradicionais produtoras de automóveis no Brasil evitam mencionar diretamente os carros chineses, mas estão preocupadas com eles. A Anfavea, que reúne essas montadoras, tem demandado maior proteção do governo. Além do aumento dos desembarques de veículos chineses, marcas do país asiático investem na produção no Brasil.

A BYD tem crescido com a montagem, na Bahia, de veículos pré-fabricados vindos da China com cotas de importação recentemente prorrogadas pelo governo, a contragosto da Anfavea. A montadora chinesa encerrou o primeiro semestre com alta de 107% nos emplacamentos no Brasil. Foram 99.029, perto do que registrou em todo o ano passado (112.814). Em quatro anos, soma 300 mil carros eletrificados vendidos no país.

Já a GWM, instalada no interior paulista, vendeu nos seis primeiros meses deste ano 35.218 unidades, entre carros e comerciais leves, mais que o dobro da soma no primeiro semestre de 2025: 15.259.

Procuradas, BYD, GWM e Anfavea não quiseram falar sobre o assunto. A Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) não responderam.

Com preços a partir de R$ 110 mil, tecnologia e design arrojados e a promessa de economia com baterias elétricas, os modelos chineses atraem, por exemplo, motoristas de aplicativos e taxistas. O programa especial de crédito oferecido pelo governo para as categorias, o Move Brasil, contempla híbridos e elétricos até R$ 150 mil.

— Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: “Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo. Cabe a você decidir se quer experimentar esse carro ou não” — avalia Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística.

Efeito dominó chega aos usados

Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica que o mercado de automóveis funciona em cadeia: quando os preços dos carros novos caem, os de seminovos e usados seguem a tendência:

— Se a referência do carro usado é o carro novo, quando o zero reduz o preço, naturalmente o usado também tem regressão mais forte. A proposta de valor dos chineses, com carros novos com tecnologia embarcada e garantia alongada, fez todo o mercado se reposicionar para baixo. E trouxe depreciação mais aguda para os usados, diferentemente do que acontecia há três anos.

Nas lojas de usados do Boulevard Shopping Car, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, pátios estão cheios e há poucos clientes fechando negócio. Empresários e vendedores logo mencionam um crescente interesse por modelos elétricos chineses, mas também citam os juros altos, que dificultam vendas parceladas, principalmente de SUVs.

A consultora de vendas Heloísa Rodrigues, que atua numa das lojas, avalia que, nessa faixa, muita gente fica tentada a pagar um pouco mais para experimentar um eletrificado chinês:

— Os SUVs são muito procurados, é o carro da moda, né? Mas estão acima de R$ 100 mil. O momento das vendas é difícil principalmente porque os carros elétricos entram com preços muito baixos.

Há 11 anos no setor, o vendedor Thyago Damázio vê uma mudança drástica em pouco tempo. Ele diz que carros até R$ 80 mil ainda saem, mas, para manter o giro acima dessa faixa, só com descontos. Ele mostra um T-Cross 2026, com apenas 600 quilômetros rodados, parado ali há dois meses.

— Antigamente eu vendia sete ou oito carros em um sábado. Hoje, se vender essa quantidade em um mês, agradeço a Deus. O mercado nunca esteve tão ruim — afirma.

Marcelo Pinheiro, dono da Lumar Automóveis, também no Boulevard, tem ali um Corolla Cross, um Nissan Kicks e um HR-V há quatro meses. Para evitar mais carros acumulando poeira, ele resolveu sacrificar parte da margem de lucro e aplicou descontos de até R$ 12 mil, mas não está fácil:

— Mesmo assim não aparece comprador. Se surgir proposta mais baixa, vou aceitar.

Naquela região da Intendente Magalhães, a queda do movimento já fechou alguns estabelecimentos. Ivan Sousa, gerente de uma loja que ainda resiste, conta que foi obrigado a reduzir o quadro de funcionários:

— Não tem como manter uma estrutura se os carros não vendem. O vendedor precisa comercializar pelo menos dois veículos por mês para ter uma renda mínima, e muitas vezes nem isso está conseguindo.

Damázio acrescenta que os descontos para aquecer as vendas acabam reduzindo a comissão dos vendedores. Ele conta que já chegou a somar ganhos de R$ 14 mil em um mês, mas ultimamente tem feito menos da metade.

O governo acena com uma ajuda: incluiu no Move Brasil, na semana passada, seminovos elétricos e híbridos flex produzidos a partir de 2024 no valor de até R$ 150 mil.

Para J.R. Caporal, CEO da Auto Avaliar e Megadealer, a medida pode ajudar a resolver outro fator que tem freado a venda de automóveis no país: o acesso ao crédito e os juros muito altos. Ele avalia que os descontos também devem favorecer prestações mais acessíveis aos consumidores e revitalizar o mercado.

Bom para o consumidor

Para o motorista que quer vender seu carro, o momento não é o melhor. As revendedoras estão reduzindo as avaliações para preservar margens de lucro e compensar os descontos. Já para quem está disposto a comprar, a maré é favorável.

O servidor público Sérgio Machado, de 66 anos, que teve o carro furtado em junho, percorreu na semana passada lojas da Avenida Intendente Magalhães, que concentra revendedoras na Zona Norte do Rio, e saiu com um Cobalt 2017 automático por R$ 56 mil:

— Achei um que coube no meu orçamento. Um zero está fora da minha realidade.

Invasão chinesa não é só no Brasil

A enxurrada de carros chineses não é uma particularidade do Brasil. A reorganização da indústria automotiva da China na propulsão elétrica elevou a produção daquele país com intensa competição entre as montadoras, que conseguiram baixar muito o custo com a verticalização de cadeias produtivas como a de componentes, explica Antônio Jorge Martins, professor de cursos automotivos da FGV.

Para evitar a concorrência predatória, o governo chinês passou a estimular a exportação para outros países, como o Brasil.

Segundo dados recentes do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os carros eletrificados já representam 15% das vendas da China ao Brasil. Entre janeiro e junho deste ano, as importações brasileiras de híbridos plug-in daquele país dobraram, alcançando US$ 2,79 bilhões, enquanto as de elétricos quase quadruplicaram, chegando a cerca de US$ 2 bilhões.

Os híbridos, que ocupavam a 25ª posição na pauta de importações da China na primeira metade de 2025, passaram para o sexto lugar neste ano, com alta de 239% no valor importado.

— Hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que elas precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade. Aos poucos, vemos um número cada vez maior de empresas chinesas atuando em outros mercados justamente por essa necessidade de ampliar a lucratividade — afirma Martins, da FGV.

Montadoras disputam apoio do governo

Enquanto mercados importantes como a Europa e os EUA levantam barreiras tarifárias aos carros da China, as montadoras representadas pela Anfavea demandam o mesmo do governo brasileiro. No entanto, as fabricantes chinesas que estão se instalando no Brasil também têm se mostrado influentes para colher benefícios fiscais.

No último round dessa disputa, a BYD levou a melhor. Contrariando a Anfavea e atendendo demanda da montadora chinesa, o governo aprovou cotas adicionais de importação com alíquota zero para veículos CKD (totalmente desmontados) e SKD (semidesmontados), a partir de 1º de julho de 2026, pelo prazo de seis meses, em um limite total de US$ 463 milhões.

Diante desse cenário, observa Milad Neto, resta às montadoras tradicionais adotar estratégias de preço para preservar sua competitividade e recuperar terreno:

— Se deixar como está, o estoque aumenta e as vendas não acontecem. Não dá para manter o mesmo nível de preços quando o carro chinês entrega mais. A saída é reduzir os preços. É uma verdadeira guerra de preços e isso escancara o problema de competitividade da indústria nacional diante dos veículos chineses.

Vendas em alta

Com as promoções, a Anfavea revisou para cima sua projeção de vendas de veículos no Brasil neste ano. Espera superar 3 milhões de unidades, marca que não é alcançada desde 2014, com crescimento de 11,7% em relação a 2025. A produção nacional, por sua vez, deve chegar a cerca de 2,8 milhões de veículos, alta de 5,8% sobre o ano passado, o melhor desempenho desde 2019.

Apesar do desempenho positivo do mercado interno, o presidente da entidade, Igor Calvet, demonstrou preocupação com o avanço dos eletrificados importados, embora sem citar diretamente a China, no comunicado que acompanhou os números, no mês passado. Sem a concorrência chinesa, ele avalia que a indústria nacional teria resultados ainda melhores.

“Lamentamos muito que parte dessa recuperação venha sendo capturada por importações incentivadas por alíquotas abaixo da média mundial ou pela produção de eletrificados em SKD isenta de Imposto de Importação, algo que vem se provando desnecessário e fora de propósito, dado o bom desempenho dos veículos eletrificados no mercado”, afirmou o executivo, referindo-se aos kits pré-fabricados na China usados, por exemplo, pela BYD.

Fonte: O Globo

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