Operador de Cabral delata 40 políticos do estado; deputado de Campos entre os delatados

Um novo trecho da delação de Carlos Miranda, o operador financeiro do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), revela uma lista de 40 políticos do Rio de Janeiro que tiveram suas campanhas financiadas por caixa dois. Dentre eles, está o atual governador Luiz Fernando Pezão e o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), apontado pelo delator por pedir dinheiro a empreiteiras para Cabral e campanhas do MDB no estado.

Entre os delatados também aparece o presidente estadual do PSDC, deputado João Peixoto, de Campos dos Goytacazes, que teria recebido R$ 1 milhão, segundo Miranda.

Atual candidato ao governo do estado, Eduardo Paes negou as acusações, disse que nunca conversou com o delator. O atual governador Luiz Fernando Pezão afirmou que todas as doações para sua campanha foram feitas dentro da legalidade.

A delação de Carlos Miranda foi homologada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, em 6 de março deste ano. A Globo teve acesso exclusivo ao resumo do anexo de número 73, que contém a relação dos políticos citados pelo delator.

Miranda contou que executava a parte administrativa e financeira das campanhas do MDB no Rio de Janeiro e que havia combinações com os fornecedores para que eles subfaturassem as notas apresentadas. Assim, havia nas notas pagamento parte dos valores de forma oficial e a outra parte por fora, em dinheiro, ou por meio de pagamentos das empresas doadoras diretamente aos fornecedores. Os pagamentos eram feitos principalmente por empreiteiras, como é o caso da OAS, Delta, Carioca e Andrade Gutierrez.

O delator afirmou que Sérgio Cabral, que governou o estado de 2007 a 2014 também ajudava outros candidatos, seja com ajuda em dinheiro, seja com pagamento de despesas de campanha. Miranda apresentou uma relação dos beneficiados, entre eles Paulo Melo, Jorge Picciani, Graça Matos, Edson Albertassi, Wagner Montes, Marcos Figueiredo, Édino Fonseca, Roberto Dinamite, Coronel Jairo e Cidinha Campos.

Carlos Miranda contou também que na eleição para prefeito em 2008, Sérgio Cabral atuou como arrecadador para Eduardo Paes, utilizando-se do cargo de governador para obter o valor de praticamente toda a campanha, assim como atuou para viabilizar a campanha de Rodrigo Neves para a prefeitura de Niterói. Ele disse ainda que o ex-governador atuou na campanha de Nelson Burnier em 2008 e 2012 para a prefeitura de Nova Iguaçu, e para a campanha de Graça Matos à prefeitura de São Gonçalo.

Miranda afirmou que Wilson Carlos apoiou a campanha do vereador eleito Eduardão em 2012, destinando dinheiro para tanto. Em 2010, Miranda disse que o deputado estadual Wagner Montes recebeu recursos para despesas de campanha no valor de R$ 1,5 milhão para não se candidatar como governador. Disse ainda que, também em 2010, Chiquinho da Mangueira, Edson Albertassi, Paulo Melo e Nelson Gonçalves receberam dinheiro.

O dinheiro arrecadado para a campanha vinha, segundo o delator, de empresas como empreiteiras e fornecedores do governo do estado. Ele citou a Fetransport, prestadores de serviços e também hotéis. Muitas empresas contribuíram para a campanha visando manter a relação com o governo do Rio.

Em 2014, Miranda disse que Cabral lançou seu filho Marco Antônio Cabral como candidato e tinha interesse na reeleição de Pezão como governador. Para tanto, atuou na arrecadação de recursos e e para viabilizar a campanha de ambos, além de candidatos que apoiassem seu filho.

Ainda em 2014, segundo Miranda, Cabral também apoiou Aécio Neves (PSDB) no Rio de Janeiro durante a campanha presidencial e, juntamente com Wilson Carlos, planejou como seria feita a contribuição às campanhas de Pezão e do filho, definindo a estrutura, o material, o apoio, assim como buscando fornecedores. Destacou ainda que candidatos vinculados à campanha de Marco Antônio receberam apoio financeiro, tanto em dinheiro em espécie, quanto em contribuições feitas por empresas.

Miranda citou nominalmente os políticos que receberam dinheiro, bem como os valores repassados a cada um:

  • Edson Albertassi – R$ 1 milhão
  • Andre Lazaroni – R$ 1 milhão
  • André Santos – R$ 2,5 milhões
  • Claise Maria – R$ 1,5 milhão
  • Christino Áureo – R$ 2 milhões
  • Gustavo Tutuca – R$ 600 mil
  • Tiago Pampolha – R$ 1 milhão
  • Graça Matos – R$ 3,5 milhões
  • José Luiz Nanci – R$ 2 milhões
  • Marcelino Almeida – R$ 500 mil
  • Carlos Castilho – R$ 3 milhões
  • Tio Carlos – R$ 1 milhão
  • Carlos Osório – R$ 300 mil
  • Marta Rocha – R$ 300 mil
  • João Peixoto – R$ 1 milhão
  • Marcos Abraão – R$ 1,5 milhões
  • Marcelo Queiroz – R$ 600 mil
  • Paulo Mustrangi – R$ 600 mil
  • Gustavo Trota – R$ 1 milhão
  • Luiz Martins – R$ 1,2 milhão
  • Tania Rodrigues – R$ 1 milhão

Carlos Miranda citou também em sua delação o ex-prefeito e atual candidato a governador do estado Eduardo Paes. Atualmente, Paes é do Democratas, mas na época dos fatos citados pelo delator ele fazia parte do MDB.

O que Carlos Miranda contou sobre Paes e a Odebrecht não está na delação feita pelos executivos da empreiteira. Na versão de Miranda, o ex-prefeito é apontado como arrecadador de campanha para o antigo partido.

Na delação da empreiteira divulgada em abril do ano passado, os executivos disseram que Paes pediu dinheiro de caixa dois apenas para a campanha dele próprio à reeleição como prefeito em 2012 e para a campanha de Pedro Paulo a deputado federal. Na ocasião, o então superintendente da Odebrecht, Benedicto Junior, afirmou que Paes não pediu dinheiro para uso pessoal.

Sem dizer data, Miranda relatou o episódio em que o então prefeito Eduardo Paes mandou a Odebrecht entregar a Sergio Cabral R$ 10 milhões para ele fazer campanha, assim como a OAS. Desse valor, disse Miranda, a Odebrecht entregou R$ 5 milhões em forma de contribuição de campanha, como por exemplo, R$ 500 mil reais recebidos pela candidata Graça Matos.

Miranda afirmou também que o então prefeito Eduardo Paes determinou que a OAS também pagasse a Cabral R$ 10 milhões e que, conforme combinado, R$ 1,5 milhão deveria ser pago ao candidato Jorge Picciani. Desse valor, Niranda disse que a OAS foi orientada por Cabral a pagar R$ 1 milhão para a campanha de Aécio Neves.

No documento a que a Globo teve acesso, o ministro Dias Tofolli determinou que o anexo 73 fosse enviado para três órgãos: para o próprio STF, para apurar eventuais crimes cometidos pelo senador Aécio Neves e pelo deputado Marco Antonio Cabral; para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), para apurar os casos do governador Luiz Fernando Pezão e do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Domingos Brazão, e para o Tribunal Regional Eleitoral do RJ para apurar eventuais crimes eleitorais.

O que dizem os citados

Eduardo Paes disse que nunca solicitou recursos para a campanha de Pezão e nunca conversou com o delator sobre qualquer assunto. Disse ainda que em diversas frentes de investigação na Justiça, todos os colaboradores, de diferentes empreiteiras, reafirmaram, enfaticamente, que ele não ofereceu contrapartida de qualquer natureza, a quem quer que seja, e que não recebeu benefícios pessoais e nem praticou qualquer ato de corrupção.

O governador Luiz Fernando Pezão disse que todas as doações foram feitas de acordo com a legislação eleitoral.

Cidinha Campos afirmou que nunca recebeu dinheiro de Miranda nem de quem quer que seja que não tenha sido declarado.

Aécio Neves disse desconhecer os fatos citados pelo delator.

A defesa de Edson Albertassi afirmou que a afirmação de Miranda é mentirosa.

O deputado André Lazaroni disse que todas as doações para sua campanha de 2014 estão declaradas em sua prestação de contas, e que desconhece qualquer doação que não seja de origem lícita.

O deputado Gustavo Tutuca também disse que a afirmação de Miranda é mentirosa e que jamais teve qualquer tipo de relação com o delator.

Tiago Pampolha negou as acusações e disse que toda doação para campanha foi declarada em sua prestação de contas.

Graça Matos também disse que a acusação não é verdadeira e que todos os recursos recebidos foram oficiais.

A deputada Martha Rocha repudiou as denúncias e afirmou que jamais recebeu caixa dois.

A assessoria de Wagner Montes “informa que  jamais recebeu ou receberia doação, através de caixa 2, para financiamento de campanha e que suas contas foram declaradas e aprovadas pelo TRE. O Deputado também informa que nunca se candidatou ao cargo de Governador do Estado e lembra que essa é uma decisão do partido. Portanto, jamais poderia ter recebido qualquer quantia para desistir de uma candidatura que não existia e nem estava nos planos políticos. Ele não conhece Carlos Miranda e vai tomar as medidas  judiciais cabíveis em relação do delator.”

Wilson Carlos também negou as acusações.

A empreiteira OAS não quis se manifestar.

A Fetranspor afirmou desconhecer o teor de uma delação que refere-se a fatos supostamente ocorridos antes da posse do novo corpo administrativo.

Os outros citados na reportagem não foram localizados para comentar as denúncias.

Fonte: Com G1

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