Ex-assessor de Maia e Garotinho, novo braço direito de Witzel acumula tarefas no governo: ‘Fiel escudeiro’

Por Paulo Cappelli, O Globo

RIO — Quarenta e dois minutos após snipers da Polícia Militar matarem o sequestrador que mantinha reféns em um ônibus na Ponte Rio-Niterói, há 12 dias, um helicóptero transportando o governador Wilson Witzel pousou na pista, ainda interditada. Quem saltou primeiro da aeronave foi Cleiton Rodrigues , secretário de Governo e Relações Institucionais. Celular em punho, Cleiton filmou os primeiros passos de Witzel e, depois, correu para conseguir acompanhar um eufórico governador a desferir socos no ar, celebrando a atuação dos atiradores . Há apenas um mês e meio no comando da secretaria com mais funções do Palácio Guanabara , Cleiton conquistou a confiança de Witzel da mesma forma com que o governador chegou à Ponte após o desfecho do sequestro: voando.

O próprio secretário admite que a aproximação foi a jato, uma vez que o primeiro contato entre ambos, diz ele, ocorreu somente em outubro do ano passado, às vésperas do segundo turno da eleição. Na ocasião, Cleiton, que afirma não lembrar como obteve o celular de Witzel, enviou uma mensagem de WhatsApp ao então candidato com análises das pesquisas eleitorais. Desde então, ambos passaram a conversar sobre política, e, rapidamente, Witzel o convidou para ser seu chefe de gabinete.

Mesmo na antiga função, antes de assumir a importante secretaria, Cleiton já ostentava no peito um broche com a inscrição “secretário”. E, para quem o provocasse, tinha a resposta na ponta da língua: “A chefia de gabinete é de extrema importância. Ela é a secretaria de chefia de gabinete”, repetia, mesmo que o órgão não tivesse, de fato, status de secretaria. Adepto de símbolos, o próprio governador endossava a vaidade de Cleiton. As afinidades não passam despercebidas: os dois têm em seus gabinetes uma bandeira do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Articulação política

No comando da Secretaria de Governo, Cleiton se tornou o funcionário de primeiro escalão com mais atribuições no Palácio Guanabara: monta a agenda de Witzel, comanda o badalado programa Segurança Presente, as recém-implementadas ações de controle urbano e a Lei Seca, e controla todos os assuntos conjuntos que englobam várias secretarias. Sob seu guarda-chuva, também está a articulação com deputados estaduais. A imagem de político hábil foi, inclusive, a justificativa apresentada por Witzel para nomear Cleiton no lugar do antecessor, Gutemberg Fonseca.

Mesmo sem ter conseguido se eleger nas vezes que tentou, Cleiton tem estrada na política. Hoje com 51 anos, o homem forte de Witzel entrou no metiê há 30, pelas mãos do ex-prefeito e hoje vereador Cesar Maia. Depois disso, foi coordenador das campanhas do ex-governador Anthony Garotinho em 2014 e 2018, a quem também assessorou quando deputado federal. Cleiton trabalhou ainda para o prefeito de Nova Iguaçu, Rogério Lisboa, e para o ex-deputado federal Alexandre Valle, nomeado por Witzel para a presidência do Instituto de Pesos e Medidas do Estado — uma indicação que, segundo Cleiton, partiu da Assembleia Legislativa.

Evasiva sobre candidatura

Na coordenação da campanha de Garotinho, em 2018, Cleiton conheceu a mulher, com quem tem uma filha — ele é pai de outros sete, de relacionamentos anteriores. Chamada carinhosamente de “Lindinha”, Lindalva é adepta de artes marciais e também trabalhou para Garotinho. Mas a união, que culminou com um casamento em fevereiro, parece ser o único resquício do período em que atuou para o ex-governador. Depois de se aproximar de Witzel, Cleiton se afastou de Garotinho.

— Antes, Cleiton ia com frequência à casa do Garotinho. Agora, mesmo Garotinho com a saúde debilitada, ele não aparece nem liga. Cleiton é super dedicado a quem está servindo no momento, mas muda de grupo político com extrema facilidade — opina um aliado próximo do ex-governador.

Cleiton nega um afastamento estratégico, bem como a versão de que foi apresentado a Witzel por Garotinho.

— Eu não sabia que ele estava doente. Até estive com a ( deputada federal) Clarissa Garotinho no Palácio Guanabara na semana passada, mas não sabia disso — afirmou Cleiton, dizendo ter Cesar Maia como um “pai” , Witzel como um “irmão” e Garotinho como “um bom camarada com quem trabalhei”.

Além das funções que competem à Secretaria de Governo, Cleiton acumula uma tarefa extraoficial curiosa. Ele é responsável por uma “vaquinha” para a compra de vinhos, charutos e acepipes servidos nas confraternizações das noites de quinta-feira, no Palácio Guanabara. Com o mesmo discurso, pede R$ 100 a prefeitos, deputados, vereadores, secretários e figuras do Judiciário que vão aos encontros. Quando vai à Alerj, alguns parlamentares lhe oferecem, ironicamente, notas de R$ 50 e R$ 100.

— Eu peço para quem puder trazer um vinho, uma carne, algo do tipo. Quem não pode, peço que contribua. Não seria correto usar dinheiro público, não é?

Quando soube que a reportagem o retrataria como o novo homem forte do governo, protestou:

— Você vai me deixar mal aqui. O homem forte é o vice, Cláudio Castro. Sou só um fiel escudeiro do Witzel.

Neste momento da entrevista, Lindalva, que o aguardava para jantar, entrou no gabinete. Ele aponta para a lutadora:

— Minha esposa é braba, hein! Olha lá…

Quanto ao vídeo que fez de Witzel logo após o sequestro na Ponte Rio-Niterói, Cleiton nunca publicou o conteúdo. O secretário diz que foi sua a ideia de filmar.

— Queria captar o encontro do governador com os policiais. Não sabia que toda a imprensa estaria de frente quando saltamos do helicóptero. Já apaguei o vídeo — assegura ele, que aparece nas fotos de jornais filmando Witzel.

Quanto a seu futuro político, o secretário, que tem sido especulado sobre uma candidatura a prefeito, despista.

— Vou fazer o que o governador mandar — jura.

Fonte: O Globo

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