Garotinho aciona TRE-RJ para barrar candidatura de Eduardo Paes por suposta ligação com grupos criminosos e pede informações à PF, MPF, MPRJ e STF

O candidato do Republicanos ao Governo do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, apresentou ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) uma Notícia de Inelegibilidade contra Eduardo Paes, candidato do PSD ao mesmo cargo, e pediu que a Justiça Eleitoral apure possíveis relações político-administrativas entre o ex-prefeito do Rio e pessoas apontadas em investigações como ligadas a grupos criminosos.
A petição foi protocolada em 26 de agosto de 2026, no processo de registro de candidatura de Paes, e é dirigida ao desembargador eleitoral Bruno Bodart. Garotinho sustenta que o conjunto de fatos, documentos e investigações citados na peça justificaria a abertura de instrução probatória para verificar eventual utilização direta ou indireta de estruturas criminosas ou paramilitares no projeto político-eleitoral do candidato do PSD.
A representação requer a realização de diligências e produção de provas. Ao final, caso sejam comprovados os fatos alegados, Garotinho pede o reconhecimento da inelegibilidade e o indeferimento do registro de candidatura de Eduardo Paes.
Precedente do TSE
A argumentação de Garotinho utiliza como fundamento precedente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a interferência de organizações criminosas no processo eleitoral.
A representação cita o entendimento firmado pelo TSE no REspEl nº 060027526/RJ, relatado pelo ministro Antonio Carlos Ferreira, segundo o qual a vedação prevista no artigo 17, §4º, da Constituição Federal pode ser aplicada diante da existência de elementos que indiquem participação ou influência de organização criminosa, não dependendo necessariamente de uma condenação criminal definitiva nos moldes tradicionais da Lei da Ficha Limpa.
A partir desse entendimento, Garotinho sustenta que a Justiça Eleitoral deve analisar se o conjunto de relações políticas, administrativas e territoriais apontado na representação revela eventual influência de grupos criminosos sobre a candidatura de Eduardo Paes.
Lucinha e o chamado “Bonde do Zinho”
Um dos principais capítulos da representação trata da relação política entre Eduardo Paes e a deputada estadual Lucinha.
Segundo a peça, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro denunciou Lucinha e sua ex-assessora Ariane Afonso Lima, sustentando que ambas integrariam um suposto “núcleo político” ligado a uma organização miliciana.
A acusação, citada por Garotinho, afirma que informações sobre a agenda de visitas de Paes à Zona Oeste teriam sido repassadas ao grupo criminoso. A denúncia também aponta suposta atuação para preservar a chamada “Brecha da P5” no transporte alternativo, que seria de interesse econômico do grupo.
Garotinho ainda destaca a nomeação de Tadeu Amorim de Barros Júnior, conhecido como Júnior da Lucinha e filho da deputada, para uma secretaria municipal durante a gestão de Paes.
Nomeações e relações políticas
Outro ponto questionado é a nomeação do policial penal Igor Bicaco João para um cargo comissionado na Prefeitura do Rio, em 2025.
A petição afirma que Igor havia ocupado função de elevada responsabilidade na administração penitenciária estadual e que seu nome teria sido citado em uma denúncia envolvendo uma suposta interlocução com Luiz Antônio da Silva Braga, o “Zinho”, apontado como liderança de uma milícia da Zona Oeste.
Garotinho pede informações à Polícia Penal, ao Ministério Público e à Prefeitura para esclarecer o histórico funcional de Igor, eventual existência de procedimentos administrativos e as circunstâncias de sua nomeação.
A representação também questiona a nomeação de Chiquinho Brazão para a Secretaria Especial de Ação Comunitária da Prefeitura do Rio, em 2023. O documento registra ainda que a Primeira Turma do STF condenou, em fevereiro de 2026, Chiquinho e Domingos Brazão pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, reconhecendo também a participação em organização criminosa armada.
Vaguinho Neguinho e apoio a Paes
A representação de Garotinho ainda aborda o apoio eleitoral do vereador de Nova Iguaçu Vaguinho Neguinho à candidatura de Eduardo Paes.
Segundo o documento, Vaguinho participou de uma carreata ao lado de Paes em 16 de agosto e declarou apoio à candidatura. Quatro dias depois, foi alvo de busca e apreensão na Operação Fora de Ordem, investigação que, conforme narrado na peça, apura a atuação de uma organização criminosa armada na Baixada Fluminense.
Garotinho pede que a Polícia Federal e o Ministério Público esclareçam a situação de Vaguinho na investigação, inclusive se ele figura formalmente como investigado ou apenas como alvo de medida cautelar.
Carlos Jordy chama Paes de “Dom Corleone”
No mesmo processo de registro de candidatura de Eduardo Paes, o deputado federal e candidato ao Senado Carlos Jordy também apresentou uma Ação de Impugnação de Registro de Candidatura (AIRC) contra o candidato do PSD.
Na ação, Jordy sustenta que existe uma conexão política e institucional entre Paes e diferentes núcleos políticos relacionados a territórios sob influência de grupos armados.
Em um dos trechos mais contundentes da peça, Carlos Jordy compara Eduardo Paes ao personagem “Dom Corleone”, da trilogia O Poderoso Chefão.
Segundo a ação, os diferentes personagens apontados na impugnação aparecem como interlocutores políticos, beneficiários de apoio eleitoral, ocupantes ou indicados para cargos públicos, intermediários de obras e integrantes de redes partidárias ligadas ao ex-prefeito.
Na avaliação apresentada por Jordy, Eduardo Paes estaria no centro dessa estrutura. O texto afirma que, sem a estrutura política, institucional e financeira proporcionada por Paes por meio da Prefeitura do Rio, esses atores não teriam alcançado a influência e o poder apontados em seus respectivos territórios. A partir dessa argumentação, Jordy sustenta que a situação justificaria o indeferimento do registro de candidatura de Paes, com fundamento no artigo 17, §4º, da Constituição Federal.
A ação de Jordy também requer diversas diligências, incluindo informações ao Tribunal de Justiça, Ministério Público, Polícia Civil e Prefeitura do Rio sobre pessoas, nomeações, obras, reuniões e possíveis relações administrativas citadas na peça.
Pedido de Garotinho
Garotinho requer ao TRE-RJ que a Notícia de Inelegibilidade seja recebida, que o Ministério Público Eleitoral seja comunicado e que Eduardo Paes seja notificado para apresentar defesa.
O ponto central da iniciativa é a produção de provas e realização de diligências para esclarecer as relações e fatos apresentados na representação. A defesa afirma que parcela relevante dos documentos está sob custódia do Ministério Público, da Polícia Federal e do Poder Judiciário e que não pretende que a Justiça Eleitoral faça um julgamento criminal, mas examine os elementos sob sua competência eleitoral.
Entre os pedidos estão informações à Polícia Federal sobre a Operação Emendatio, esclarecimentos sobre a investigação envolvendo Vaguinho Neguinho e outras diligências relacionadas aos fatos apresentados na representação.
Ao final, caso a instrução comprove, segundo os critérios jurídicos sustentados na peça, a utilização direta ou indireta de estruturas criminosas ou paramilitares no projeto político-eleitoral de Eduardo Paes, Garotinho pede que o TRE-RJ reconheça a inelegibilidade e indefira o registro de candidatura do candidato do PSD.
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