O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

Por Marcos Pędłowski
O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática
A reportagem da jornalista Hiroko Tabuchi, publicada originalmente no The New York Times e reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo, traz novas evidências de um dos capítulos mais graves da história recente da crise climática: as grandes empresas de petróleo e gás sabiam, desde pelo menos a década de 1960, que suas operações liberavam quantidades muito superiores de metano às oficialmente divulgadas e que esse gás teria um papel decisivo no aquecimento global.
O material analisado pelo Center for Climate Integrity reúne documentos internos produzidos por associações empresariais e pelas próprias companhias petrolíferas. Esses documentos mostram que a indústria possuía conhecimento técnico detalhado sobre o problema muito antes de o tema se tornar objeto de debate público. Em vez de alertar governos, reguladores e a sociedade, o setor escolheu minimizar os riscos e investiu em campanhas de relações públicas destinadas a consolidar a imagem do gás natural como uma fonte de energia ambientalmente amigável.
O aspecto mais importante dessa revelação não reside apenas na constatação de que o metano é um gás de efeito estufa extremamente potente — cerca de 80 vezes mais eficiente do que o dióxido de carbono em reter calor ao longo de vinte anos. Esse dado já é amplamente reconhecido pela literatura científica. O elemento verdadeiramente explosivo consiste na demonstração de que as empresas possuíam informações privilegiadas sobre a dimensão real de suas emissões e, ainda assim, permitiram que governos, investidores e consumidores continuassem tomando decisões baseadas em dados incompletos ou deliberadamente distorcidos.
Essa conduta aproxima o caso das petrolíferas de outros grandes escândalos corporativos. A indústria do tabaco ocultou durante décadas evidências sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas químicas esconderam informações sobre a toxicidade de diversos compostos. Fabricantes de agrotóxicos financiaram campanhas para desacreditar pesquisas independentes que apontavam riscos ambientais e sanitários. Em todos esses episódios, o problema não se limitou ao dano causado pelos produtos comercializados. A fraude também consistiu na supressão deliberada de informações essenciais para que a sociedade pudesse avaliar corretamente os riscos envolvidos.
No caso das mudanças climáticas, entretanto, a dimensão do dano é incomparavelmente maior. A omissão de informações sobre o metano contribuiu para retardar políticas públicas, enfraquecer regulações ambientais e prolongar um modelo energético baseado na expansão contínua dos combustíveis fósseis. Cada década perdida representou maior concentração de gases de efeito estufa, temperaturas mais elevadas, eventos climáticos extremos mais frequentes e custos humanos e econômicos cada vez mais elevados.
Por essa razão, cresce em diversos países o movimento que busca responsabilizar financeiramente as empresas petrolíferas pelos prejuízos decorrentes das mudanças climáticas. A divulgação desses documentos fortalece esse esforço porque demonstra um elemento jurídico fundamental: não se trata apenas de discutir emissões inevitáveis decorrentes da atividade econômica, mas de avaliar a responsabilidade de empresas que possuíam conhecimento técnico sobre os riscos, esconderam essas informações do público e adotaram estratégias de comunicação destinadas a preservar seus mercados.
Essa distinção é decisiva. Empresas podem cometer erros de avaliação científica. O que os documentos revelam, contudo, sugere algo muito diferente: uma estratégia consciente de administrar a percepção pública do problema enquanto continuavam expandindo seus negócios.
Essa discussão interessa diretamente ao Brasil. O país amplia investimentos na exploração de petróleo e gás, discute novas fronteiras de exploração na Margem Equatorial e mantém forte dependência econômica da exportação de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, apresenta-se internacionalmente como liderança climática. Essas duas posições tornam-se cada vez mais difíceis de conciliar quando novas evidências mostram que parte da indústria conhecia os impactos ambientais de suas operações muito antes de qualquer obrigação regulatória.
As revelações apresentadas por Hiroko Tabuchi reforçam uma conclusão que se torna cada vez mais difícil de contestar: a crise climática não resulta apenas da queima de combustíveis fósseis. Ela também decorre de décadas de ocultação de informações, manipulação da opinião pública e adiamento deliberado de medidas capazes de reduzir emissões. Em outras palavras, a responsabilidade das grandes petrolíferas não se limita ao carbono que emitiram para a atmosfera. Ela inclui também o conhecimento que decidiram esconder da sociedade.
*Marcos Pędłowski – Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental.


