Restaurantes populares atraem atenção mundial e Rio sedia fórum de segurança alimentar

O Brasil levou 400 anos para descobrir que o arroz que chegou ao nosso país não veio da Ásia, e sim da África, da Guiné. Trazido nos cabelos das escravas africanas, ele foi considerado de má qualidade pela Corte, que proibiu seu cultivo. Mas os afrodescendentes insistiram e continuaram a plantar. Hoje o arroz africano é servido como iguaria em restaurantes finos.

Essa história foi contada quarta-feira (29), no auditório do Museu de Arte do Rio (MAR), por quem entende muito do assunto.

Maria Emilia Pacheco, antropóloga, assessora da ONG Fase e ex-presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), ocupou os 15 minutos que lhe foram reservados para falar na tarde de abertura do 1º Fórum Regional das Cidades Latino-Americanas Signatárias do Pacto de Milão sobre Política de Alimentação Urbana com histórias sobre a identidade dos alimentos. E foi aplaudida de pé pela plateia que lotava o auditório do Museu.

Ela chamou atenção para o fato de que os hábitos alimentares “alimentam identidades”:

“No Brasil, comer farinha com água estigmatiza as pessoas. O fruto Umbu, encontrado na Caatinga, é igualmente associado à falta de alimentos mas muda o estatuto quando ele começa a ser reconhecido em outras regiões. O preconceito é em relação aos povos e comunidades tradicionais. Fundamentalmente, o debate sobre a identidade dos alimentos nos transporta para entendermos que temos uma enorme diversidade de alimentos”, disse Maria Emilia.

E, mesmo com tanta diversidade, no nosso dia a dia comemos quase sempre as mesmas coisas. O mesmo tipo de feijão, de arroz, de abobrinha, de lentilha… Já pensaram sobre isso?

Pena que o prefeito Marcelo Crivella, anfitrião, só participou da cerimônia de abertura do Fórum. Perdeu chance, naquele dia, de promover algo que o próprio encontro incentiva: a troca de experiências e o diálogo. Mas a vice-prefeita da cidade francesa de Montpellier (a próxima a sediar o evento), Marie-Hélène Santarelli, estava lá para ouvir as histórias de Maria Emilia e dos outros convidados.

O Rio de Janeiro está entre as 187 cidades signatárias do Pacto de Milão, assinado em 2015, na Expo Milão (feira universal associado a inovações) que teve como tema principal a busca de soluções para acabar com a fome dos 870 milhões que ainda sofrem no mundo todo. O município apresentou lá seu Programa estadual de Restaurantes Populares, lançado por Anthony Garotinho em 2000, e atraiu olhares do mundo todo.

Na verdade, dos 18 restaurantes que já estiveram funcionando em todo o estado, hoje há apenas 5.

O mais emblemático deles foi o Restaurante Cidadão Betinho, na Central do Brasil, que está fechado. Três deles passaram para a administração municipal e no ano passado Crivella comemorou a marca de 2 milhões de refeições servidas. Mas a crise afetou até mesmo a possibilidade de servir refeições baratas, a R$ 0,50, a quem precisa. A dívida com fornecedores chega a R$ 1,7 milhão, segundo dados colhidos na Secretaria de Fazenda.

Se estivessem funcionando no Centro do Rio, seria pouco provável que houvesse, como há, tantas pessoas a pedir pelas ruas.

Mas assim mesmo, ainda que funcionando mais precariamente do que seria o desejado, a ideia é boa e o programa rendeu à cidade a chance de ter, até esta sexta-feira (31) 70 especialistas a refletirem sobre segurança alimentar.

Isso inclui não só a falta de comida como também a obesidade, que, como bem lembrou Rafael Zavalla, representante da FAO (agência da ONU para agricultura e alimentação) no Brasil, ao falar à plateia na cerimônia de abertura, já é uma epidemia e está crescendo vertiginosamente.O motivo disso?

“As pessoas precisam trocar a ideia de comer pela ideia de se nutrir”, disse Zavalla.

Estamos na Década da ONU sobre Nutrição, ocasião também para se pensar no alto consumo dos alimentos ultraprocessados e o mal que este hábito vem causando à saúde, como lembrou Marcos Menezes, representante da Fiocruz.

Mas essa tarefa vai ficando mais complicada de ser cumprida aqui no Brasil, onde os programas e conselhos sobre alimentação vêm sendo enfraquecidos pelo atual governo. Exemplo disso é a publicação da MP 870, em 1º de janeiro, que desconfigurou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan) e extinguiu o Consea (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional).

“Há uma redução significativa da biodiversidade que está ligada ao processo de produção dos ultraprocessados. Alguns institutos e organizações têm organizado seminários e fóruns apontando a necessidade emergente de mudanças neste sistema nutricional”, acrescentou Menezes.

O cenário não está favorável. Uma epidemia de obesidade com desnutrição em meio a mudanças do clima que dificultam plantações, tudo isso junto com a hegemonia de alimentos que se vêm consumindo, grande parte por conta da produção acelerada das grandes indústrias alimentícias.

Tudo isso junto recebe o nome de Sindemia Global, expressão que foi lembrada por Mônica Guerra Rocha, fundadora e diretora executiva do Instituto Comida do Amanhã, também palestrante.

“As cidades podem ser vilãs e vítimas neste cenário. A proposta deste encontro é derrubar muros. Estamos no meio de grandes desafios mundiais, mas temos a potência de fazer perguntas e de trazer várias respostas”, disse ela.

Considerando que as cidades estão atraindo cada vez mais pessoas, fenômeno que não parece estar nem perto de decrescer, vamos concordar com Mônica Guerra.

Encontros como este, em que há chances de trocar informações e ideias são muito bem-vindos. É nisso, no fim e ao cabo, que se baseiam os teóricos que entendem o espaço urbano como um território instigante. Edward Glaeser, em seu livro “Os Centros Urbanos – A maior invenção da humanidade” (Ed. Campus), defende até a última gota a urbanidade.

“Nossa espécie urbana florescerá naquilo que poderá ser considerado uma nova era de ouro, dependendo do quanto aprendermos das lições que nossas cidades nos ensinam.” – Edward Glaeser
Eis a questão. É preciso aprender. E ter vontade política para investir.

Os restaurantes populares do Rio, que mereceram um olhar internacional, sem dúvida são uma aposta de sucesso. Mas, para que eles não caiam de vez, precisam de investimentos. Se o estado não possui dinheiro, a iniciativa privada poderia contribuir, já que, como se viu, é ideia que atrai outras ideias e abre caminho para o crescimento. Beneficia os pobres e, por tabela, põe holofotes sobre a cidade. Talvez seja a isso que, verdadeiramente, se chama de “ganha-ganha”.

Fonte: G1

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