16/06/2024
Política

Reeleição de Castro no Rio abre disputa de poder no Legislativo e no Executivo

O novo mandato ainda nem começou, mas os políticos do Rio já brigam por espaços de destaque no Legislativo e no Executivo. Após a vitória no primeiro turno, o governador Cláudio Castro (PL) começa a definir o seu secretariado para os próximos anos, e o chamado “núcleo duro” da administração estadual se reúne esta semana para definir a nova divisão de espaços no primeiro escalão do Palácio Guanabara. Enquanto isso, antes mesmo de tomarem posse, deputados estaduais eleitos travam uma guerra nos bastidores pela presidência da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Márcio Canella (União) e Rodrigo Bacellar (PL) já amealham votos, mas um novo nome entrou na disputa na última semana: o senador Flávio Bolsonaro (PL) passou a defender a candidatura de Dr. Serginho à presidência da casa legislativa.

Aliados pedem espaço

O loteamento no secretariado de Castro, que chegou a englobar 16 partidos no mandato que se encerra em dezembro, deve ser mais brando no próximo governo, dizem aliados do chefe do Executivo. Um perfil mais técnico e com menos políticos à frente de pastas deve ser adotado. Também é possível que uma reforma administrativa seja realizada, com o enxugamento de pastas.

De certo, apenas o fato de que o ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB), que chegou a ser vice-candidato ao governo ao lado de Castro, receberá convite para ocupar uma pasta. Como ele teve a sua candidatura impugnada e se tornou réu por crimes ambientais, ainda não se sabe se poderá assumir uma secretaria. Caso esteja inviabilizado pela Justiça, caberá a ele a indicação do titular do cargo em questão.

Mas o MDB pede mais espaços do que a pasta que será oferecida a Reis. Seus correligionários fazem chegar ao governador a lembrança de que o irmão de Washington, Rosenverg, foi derrotado na eleição que levou Márcio Pacheco (PSC) ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). Mais cargos à sigla, então, soariam como uma espécie de “reparação” pelo mal-estar causado na época.

Os cinco principais partidos da aliança formada em torno de Castro também serão contemplados: União Brasil, PP, Solidariedade, Republicanos e o próprio PL, sigla que abriga o governador e o presidente Jair Bolsonaro. O Republicanos, por exemplo, já solicitou permanecer com a Secretaria de Desenvolvimento Social.

O PP quer continuar com a disputada pasta da Saúde, e o gigante União Brasil solicita mais espaços do que teve no último ano. A distribuição de cargos para o partido chegou a ser um ponto de tensão com o governo e, após ter indicado o vice-governador, a legenda espera seguir com a Secretaria de Transportes, além de ganhar novos espaços.

O novo vice-governador do Rio, Thiago Pampolha (União), deve voltar à Secretaria de Meio Ambiente, enquanto o chamado “núcleo duro” do governo deve permanecer imutável.

Firmes nos cargos

Nicola Miccione seguirá na Casa Civil, enquanto o braço-direito do governador, Rodrigo Abel, continuará à frente da chefia de gabinete. A Procuradoria-Geral do Estado permanecerá com Bruno Dubeux. Castro também não pretende abrir mão de Leonardo Lobo na Secretaria de Fazenda. A dúvida fica por conta de Rodrigo Bacellar (PL), que voltou para a Secretaria de Governo após ter sido eleito deputado estadual. Caso insista nos planos de concorrer à presidência da Alerj, ele precisará deixar o cargo. Independentemente dos seus sonhos, ele continuará integrando o grupo que se reunirá com Castro para tomar as decisões.

Castro informou, por meio de sua assessoria, que “algumas reuniões para definir a reforma administrativa do governo já estão sendo realizadas, mas não há nomes definidos”.

Acordo quebrado

Antes mesmo da posse da nova legislatura, deputados travam uma guerra fria nos bastidores pela presidência da Alerj. Um acordo que foi alinhavado no último mês deve ser quebrado: quando Reis desistiu de ser vice-candidato ao governo, ficou acertado que a nova indicação ao posto caberia ao União Brasil. Na ocasião, Márcio Canella (União) foi vetado pelo partido, já que era visto como um potencial puxador de votos para o Legislativo. Em contrapartida ao veto, ficou acertado que ele contaria com o apoio do governo para a presidência da Alerj por dois anos, enquanto Bacellar o sucederia no biênio seguinte.

Poucas semanas depois, no entanto, os dois deputados contam votos e pensam em lançar as suas respectivas chapas, sem ligar para as tratativas do último mês. Para viabilizar uma candidatura à presidência da Alerj é necessário ter, ao menos, 13 apoios declarados. A aliados, Castro teria dito que, caso Bacellar se viabilize, não pretende comprar um lado na disputa. Bacellar também contaria com o valioso apoio do ainda presidente da Casa, André Ceciliano (PT), que não gostaria de ver Canella o sucedendo e exerce forte influência sobre os deputados que já têm mandato.

Nesse cenário, em que o PL já tinha Bacellar como nome postulante ao cargo para disputar com Canella, outro nome ganha força: bolsonarista de primeira hora, o deputado Dr. Serginho recebeu o apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL). Fiel aos ideais da família, ele foi secretário de Ciência e Tecnologia no primeiro mandato de Castro, representando a ala bolsonarista no governo.

É nesse contexto que as contas começam a ser feitas. O União Brasil é dono de uma bancada de oito parlamentares, enquanto o PL elegeu 17. Caberia a Canella, portanto, buscar apoios fora do seu partido, caso queira lançar a sua chapa. A decisão de se alinhar a Bolsonaro no segundo turno das eleições deste ano, enquanto o presidente regional do União, Wagner Carneiro, o Waguinho, está com Lula, teria as eleições para a Alerj como pano de fundo. Caso se aliasse ao petista, ele perderia a possibilidade de pedir votos aos parlamentares de direita à frente.

O GLOBO procurou Bacellar, que se limitou a dizer que segue a serviço do governador e, neste momento, continua empenhado em ocupar a Secretaria de Governo. Canella e Dr. Serginho não responderam aos contatos. Sobre a disputa para a presidência da Alerj, Castro afirmou que é “um político que preza pelo diálogo e respeito aos deputados”, e portanto, terá “boa relação com qualquer nome escolhido pelo parlamento para presidir a Alerj”.

O loteamento a 16 siglas

De olho na reeleição, Castro chegou a distribuir cargos no primeiro escalão do governo a 16 partidos. Para isto, novas secretarias foram criadas com o intuito de abrigar aliados. Associado aos gigantes partidários, o desenho final da sua coligação englobava 13 legendas. Em entrevista ao GLOBO, o governador afirmou que o seu grande mérito nessas eleições foi ter se viabilizado como o único nome do campo da direita, o que possibilitou a vitória no primeiro turno.

Em relação à distribuição de cargos, o governador sempre refutou a expressão “loteamento”. Para ele, o termo correto seria “coalizão”. Castro justifica a distribuição de cargos alegando que houve, nesse período, um ambiente de tranquilidade para que o estado pudesse retomar a sua credibilidade junto aos investidores.

A coligação formada teve impacto direto sobre o projeto de reeleição: graças à união de partidos, ele teve mais recursos à mão, contou com o apoio de 85 dos 92 prefeitos espalhados pelo estado e com o maior tempo de propaganda em rádio e TV.

O Globo*

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