De volta a Brasília, Eduardo Cunha prevê Bolsonaro reeleito em 2022

Dias atrás, um deputado andava apressado pela esvaziada Câmara quando foi parado por um antigo colega. Após cumprimentos e o papo protocolar, o parlamentar despediu-se: “Estou indo ver nosso amigo”. Os dois interlocutores guardam algo em comum: integravam a tropa de choque do “amigo” Eduardo Cunha em 2016, quando ele passou de presidente da Câmara que comandou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff a mais um dos estrelados presos da Lava Jato. Como os tempos de reclusão de Cunha ficaram para trás, as amizades também voltaram a ficar fortes.

Muita gente está indo ver e falar com Cunha em Brasília. Um dos comensais na semana passada foi Admar Gonzaga, advogado de Jair Bolsonaro. A aproximação com o clã presidencial é vital para Cunha, que mira as eleições do próximo ano e sobre as quais já tem uma previsão: Bolsonaro será reeleito.

Se a profecia do experimentado político se realizar, contrariando as pesquisas atuais, em fevereiro de 2023 Bolsonaro estará no Planalto e Cunha, na Câmara, onde dividirá o plenário com sua filha Danielle Cunha. Ela, eleita pelo Rio de Janeiro, ele, por São Paulo.

Os cenários dos encontros de Cunha em Brasília são dos mais refinados, como o B Hotel, a três quilômetros do Congresso. Cunha faz reuniões no amplo lobby do hotel. Se é visto, não é por acidente.

Encontrou aliados também em restaurantes requintados, como o Manuelzinho e o Bloco C, na Asa Sul. A esses interlocutores, Cunha vem detalhando seus planos. O maior deles é eleger sua filha Danielle à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro. Deixa claro que jamais disputaria votos com a filha, e por isso se candidataria por São Paulo.

Segundo um aliado, Cunha foi direto. Disse que não seria “covarde” de competir com a herdeira, que tanto se sacrificou por ele durante os quatro anos em que esteve preso. Seria “uma ingratidão”, seguiu. Muito ligados, a filha e o pai dividiram até a autoria do livro “Tchau, querida: o diário do impeachment”, lançado em junho.

Cunha tem dito ainda que trabalha duro para se livrar completamente dos processos da Lava Jato. “Desde o começo, Eduardo conhece melhor os processos contra ele do que seus advogados”, disse um aliado. Foi condenado a 15 anos de prisão, e cumpriu quatro. Em 2020, foi para casa por causa da pandemia e, em maio de 2021, teve a prisão revogada.

Se conseguir limpar a ficha a tempo, sua campanha por São Paulo terá um só norte: o antipetismo. Para justificar a força da lembrança, Cunha costuma contar que não é hostilizado nos voos Rio-Brasília, e até posa para fotos.

Eduardo também vem afirmando que tem conversado com Arthur Lira. A ligação é antiga. O atual presidente da Câmara foi um dos dez deputados que votaram contra a cassação dele, em 2016. Outros 450 sacramentaram a perda de seu mandato. Eleito com o apoio explícito de Bolsonaro, Lira agora é mais uma ponte pavimentada entre Cunha e o governo do capitão.

Um deputado próximo do ex-presidente da Câmara lembrou que Cunha e Bolsonaro tinham uma boa relação quando ambos eram deputados pelo Rio de Janeiro. À frente do MDB, então maior partido da Casa, e com trânsito na bancada evangélica, Cunha não criou dificuldades para o sempre enrolado Bolsonaro nos processos que enfrentava no Conselho de Ética da Câmara por declarações contra as mulheres ou a democracia.

Entre as fontes ouvidas pela coluna para esta reportagem, apenas uma concordou em ter o nome citado: o deputado João Carlos Bacelar, do PL da Bahia. A exemplo de Lira, votou publicamente a favor de Cunha até o fim.

“Eduardo me prestigiou muito quando foi presidente da Câmara. Ele passou por uma dificuldade muito grande. Sem dúvidas, vai voltar para a política se resolver os processos dele. Ele sabe o momento. É genial”, afirmou Bacelar. O encontro com Cunha rendeu uma foto, enviada de pronto por WhatsApp a colegas da Câmara, que vibraram. “Pode publicar: Eduardo é meu amigo pessoal e não tenho vergonha de dizer isso”, disse.

Fonte: Coluna Guilherme Amado, de Metrópoles.

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