Advogado abordou réus da Lava Jato, entre eles Cabral, Eike Batista e Sérgio Côrtes, prometendo penas mais brandas, diz MPF

Alvo de mandados de busca e apreensão há duas semanas, o advogado Nythalmar Dias Ferreira Filho está sendo investigado por supostamente tentar captar clientes – investigados pela Lava-Jato do Rio – que já tinham outros advogados de defesa. Entre os réus da Lava-Jato que teriam sido abordados por Nythalmar, estão o ex-governador do Rio Sérgio Cabral, o empresário Eike Batista, e o ex-secretário estadual de Saúde Sérgio Côrtes.

Segundo o Ministério Público Federal, Nythalmar prometia conseguir penas mais brandas devido a uma suposta proximidade com o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, responsável pelos processos da Lava-Jato, e com procuradores do MPF.

Nythalmar foi alvo de buscas em cinco endereços na cidade do Rio, no dia 23 de outubro. Os mandados foram expedidos pela juíza Rosália Monteiro Figueira, da 3ª Vara Criminal Federal do Rio, a pedido do MPF.

No despacho, a juíza escreveu que a investigação teve início a partir de representação de procuradores da Força-Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro, em que noticiam que Nythalmar “supostamente agiu no interesse de cooptar – de modo ilícito – pessoas que respondiam a processo criminal junto ao MM Juízo da 7a Vara Federal Criminal, induzindo-os a acreditarem em possíveis resultados que somente poderiam ser justificados por meio de influência junto a servidores públicos, juízes ou membros do Ministério Público Federal atuantes naquele juízo”.

O juiz Marcelo Bretas não foi alvo da operação contra Nythalmar.

Em sua decisão, a juíza Rosália Figueira destacou trecho da petição do MPF, que diz que há pelo menos cinco advogados que relataram a oferta de “facilidades” pelo advogado Nythalmar Dias Ferreira Filho para captação de clientes.

“Em relação aos clientes do escritório de Carlo Huberth Castro Cueva e Luchione, os relatos são no sentido de que Nythalmar Dias Ferreira Filho afirmou a seus clientes que seriam condenados a 25 anos de reclusão, afirmação que não apenas indica o suposto acesso a informações privilegiadas como implícita a promessa de que ele seria capaz de evitar isso”, diz um trecho do despacho.

Em outro trecho, o documento diz que o advogado Rodrigo Henrique Roca Pires, que representava o ex-governador Sérgio Cabral, relatou que Nythalmar procurou seu cliente argumentando que já teria obtido benefícios em processos criminais para alguns clientes seus e que poderia fazer o mesmo. O ex-governador teria pedido a Rodrigo que procurasse saber quem era Nythalmar e “se ele realmente teria ‘força’ para fazer tudo o que prometera”.

Já o advogado Marco Aurélio Cardoso Assef narrou que Nythalmar “tentou cooptar cliente sob seu patrocínio ‘vendendo facilidades em razão de ‘ter soltado todo mundo da Operação Pripiaty’ entre outros de maior gravidade'”.

O advogado Fernando Teixeira Martins, que representava Eike Batista, afirmou que, em junho de 2018, Nythalmar solicitou um encontro, durante o qual sugeriu que ele “substabelecesse para ele os poderes conferidos em um dos processos, porque ele seria o único advogado capaz de celebrar um ‘acordo’ em benefício” de seu cliente.

Em um segundo encontro, Nythalmar teria afirmado que ele teria “até sexta-feira daquela semana para falar com Eike sobre sua entrada no processo, “porque se aproximava uma sentença condenatória bem dura”.

Operação

Em outubro, os agentes da PF estiveram em cinco endereços ligados a Nythalmar, nos bairros de Campo Grande, Centro, Catete e Ipanema, para apreender documentos e computadores.

O advogado Nythalmar Filho ganhou fama por defender clientes com alto poder financeiro, mesmo sendo novo no meio jurídico (ele tem 30 anos de idade) e com um escritório simples, localizado atrás de uma papelaria em Campo Grande, na Zona Oeste, longe do Centro da cidade.

Alguns dos clientes importantes que Nythalmar defende ou já defendeu são Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados; Fernando Cavendish, ex-dono da Delta Construções; Arthur Soares, empresário, o Rei Arthur; Marco Antônio de Luca, prestador de serviços para o governo de Sérgio Cabral; e Alexandre Accioly, empresário.

Liminar negada

No dia 30 de outubro, uma semana depois das buscas, a defesa de Nythalmar Filho entrou com um habeas corpus no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, com pedido de liminar, para evitar o vazamento de informações de seus clientes, obtidas através da relação entre advogado e cliente, dentre elas a delação de Eduardo Cunha.

O desembargador federal Marcelo Pereira da Silva negou a liminar no plantão judicial, “uma vez que a suposta ilegalidade foi deflagrada em 23 de outubro, há exatos 7 dias, sendo certo que a urgência invocada no plantão não pode ser criada pela parte impetrante, que deixou de adotar as medidas cabíveis durante o regular expediente forense, por 5 dias úteis”.

No dia 3 de novembro, a defesa de Nythalmar desistiu do habeas corpus.

Outro lado

A produção da GloboNews ligou para o celular e o telefone fixo que consta no site da OAB como sendo do escritório do advogado Nythalmar Filho, mas não conseguiu contato.

O juiz Marcelo Bretas, que não é investigado, não quis se manifestar.

G1*

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