Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental

Por Marcos Pędłowski
As imagens desta 5a. feira (23/7) em Campos dos Goytacazes mostram um horizonte praticamente encoberto por uma espessa camada de fumaça. O cenário impressiona pela perda de visibilidade, mas o que realmente preocupa é o que essa fumaça representa. Ela não é apenas um episódio passageiro de poluição atmosférica. Ela revela o acúmulo de problemas estruturais que o município ignorou durante décadas e que agora se tornam cada vez mais evidentes.
O primeiro desses problemas é o modelo de ocupação da paisagem. Campos dos Goytacazes transformou grande parte de seu território em uma vasta monocultura de cana-de-açúcar. Ao longo do tempo, esse processo eliminou praticamente toda a Mata Atlântica que originalmente cobria a região. Restaram apenas pequenos fragmentos florestais, incapazes de exercer plenamente suas funções ecológicas de regulação do clima, retenção de umidade e redução da propagação do fogo.
A simplificação extrema da paisagem tornou o município muito mais vulnerável às queimadas. Grandes extensões contínuas de vegetação seca, associadas ao inverno mais seco e às temperaturas cada vez mais elevadas, criam condições ideais para que pequenos focos de incêndio se transformem rapidamente em grandes queimadas. Quando isso ocorre, a fumaça não permanece restrita às áreas rurais. Ela invade bairros, avenidas, escolas, hospitais e residências, afetando diretamente a qualidade de vida da população.
As mudanças climáticas agravam ainda mais esse quadro. Períodos prolongados de estiagem, ondas de calor mais intensas e redução da umidade relativa do ar ampliam o risco de incêndios. O que antes poderia ser tratado como um evento excepcional passou a fazer parte de uma nova realidade climática, exigindo respostas completamente diferentes das adotadas até hoje.
Entretanto, o clima não explica tudo. A fumaça que hoje cobre Campos dos Goytacazes também evidencia a insuficiente preparação do poder público para prevenir e combater queimadas. A prevenção exige monitoramento permanente das áreas de risco, abertura e manutenção de aceiros, planejamento territorial, fiscalização rigorosa, campanhas educativas e equipes treinadas para atuar antes que os incêndios saiam do controle. Esperar que o fogo comece para então mobilizar recursos significa atuar quando boa parte do dano ambiental e sanitário já ocorreu.
As consequências recaem principalmente sobre a saúde pública. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias sofrem imediatamente com o aumento das partículas finas em suspensão. Crescem os casos de irritação nos olhos, crises de asma, bronquite e outros problemas cardiovasculares e pulmonares. Ao mesmo tempo, a fumaça reduz a visibilidade nas rodovias, aumenta o risco de acidentes e compromete as atividades econômicas.
O horizonte tomado pela fumaça deve servir como um alerta. Campos dos Goytacazes precisa abandonar a lógica de apenas reagir às emergências e construir uma política permanente de gestão da paisagem. Isso passa pela recuperação da Mata Atlântica, pela proteção das áreas úmidas, pela diversificação do uso do solo, pelo fortalecimento da prevenção e pelo investimento em estruturas de combate aos incêndios. Enquanto essas mudanças não ocorrerem, a fumaça continuará retornando a cada período seco, lembrando que a degradação ambiental não permanece confinada ao campo: ela invade a cidade, entra nas casas e chega aos pulmões de toda a população.
*Marcos Pędłowski – Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental.


