Viúva de Picciani chama enteado de 'ingrato' e rejeita rótulo de 'novinha pistoleira' em disputa por herança - Tribuna NF

Viúva de Picciani chama enteado de ‘ingrato’ e rejeita rótulo de ‘novinha pistoleira’ em disputa por herança

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A disputa familiar envolvendo o espólio do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Jorge Picciani, falecido em maio de 2021, está hoje centrada em dois personagens de seu círculo íntimo: seu terceiro filho, Rafael Picciani, e a viúva, Hortencia da Silva Oliveira Picciani. Nas redes sociais, Hortencia acusa o ex-enteado de ter cortado um auxílio financeiro que vinha recebendo nos últimos dois anos, a título de custear despesas com seu filho. Responsável pelo inventário do pai, o ex-ministro Leonardo Picciani acusa Hortencia de buscar “privilégios indevidos”.

Reportagem publicada pela revista Veja na última sexta-feira mostrou que a guerra pelo espólio de Picciani envolve bens como fazendas, gado, imóveis e um jatinho, que estão no guarda-chuva da holding Agrobilara. Uma década antes de morrer, Picciani dividiu a empresa em cinco partes. O rateio incluiu sua primeira esposa, Márcia Cristina, e os três filhos do casal: Leonardo, hoje com 44 anos, Felipe, de 42, e Rafael, de 37. Cada um ficou com 20% do patrimônio da empresa, mesmo percentual registrado com o próprio Picciani.

Posteriormente, Picciani teve outros dois filhos, ambos ainda menores de idade. Um deles, hoje com 12 anos, é fruto de um relacionamento com Juliana Teixeira Vogas, ex-assessora da presidência da Alerj. O filho caçula, de seis anos, com Hortencia, nasceu após um tratamento de fertilização in vitro, segundo ela narra em suas redes.

Hortencia, hoje com 35 anos, contesta na Justiça os valores do patrimônio do marido que caberiam a ela e a seu filho. A ação corre em sigilo na 1ª Vara de Família da Barra da Tijuca. Ela alega que vinha recebendo um auxílio financeiro, informalmente, administrado pelos ex-enteados desde a morte de Picciani, mas acusa Rafael de “cortar a pensão” após ter questionado judicialmente a repartição dos bens da Agrobilara.

Embora mostre descontentamento nas redes sociais com o imbróglio envolvendo os três filhos do primeiro casamento de Picciani, Hortencia vem centrando sua artilharia em Rafael. Segundo a viúva do ex-presidente da Alerj, houve um distanciamento entre pai e filho em 2018. Picciani decidiu naquele ano que Max Lemos, ex-prefeito de Queimados e seu afilhado político, concorreria a uma cadeira no Legislativo fluminense. Rafael, que era deputado estadual, ficaria sem mandato.

À época, Picciani estava em prisão domiciliar, após ter sido alvo da Operação Cadeia Velha em 2017. Felipe, seu filho, também alvo da operação, só seria solto em agosto de 2018. Leonardo, então ministro do Esporte no governo Michel Temer, concorreu à reeleição como deputado federal. Com isso, Rafael foi incumbido de tocar os negócios da família e ficou fora das eleições.

“Como Jorge estava no presídio, Leo ficava em Brasília e tinha importância política maior, e o Jorge sempre organizou as vidas políticas de toda a família, ele decidiu que o Rafael não ia vir candidato a deputado (estadual), e quem ia vir candidato era o Max Lemos. E Rafael nunca perdoou o Jorge por isso”, relatou Hortencia em um dos vídeos, no qual também chama Rafael de “ingrato”.

O GLOBO apurou que a guerra familiar começou a se formar em meados de 2022, cerca de um ano após a morte de Picciani, quando Hortencia alega ter notado inconsistências na declaração de seu Imposto de Renda, feito por contadores da família. À época, ela deixou de ser representada pelo mesmo advogado que atuava para os outros filhos de Picciani. No início deste ano, após nova troca de advogado, Hortencia interpelou os irmãos Picciani judicialmente e diz que, a partir daí, deixou de receber um auxílio mensal de R$ 25 mil, a título de pensão.

Em publicações nas redes, Hortencia afirma também ter sido pressionada por Rafael a deixar a mansão onde vivia com Picciani, na Barra da Tijuca, para que fosse remunerada com o aluguel da casa. Hoje, a viúva de Picciani alega que Rafael e os irmãos tentaram inflar os valores recebidos por ela nesta fonte de renda, no processo que discute o pagamento de pensão alimentícia. Segundo Hortencia, o aluguel lhe confere pouco menos de R$ 25 mil mensais, mas os ex-enteados teriam alegado judicialmente que sua renda chegava a ser três vezes superior, conforme seu relato nas redes.

Procurado pelo GLOBO, Rafael Picciani não quis se manifestar. Em nota enviada por seu atual advogado, Carlos Eduardo Gonçalves, Leonardo Picciani rebateu as acusações de Hortencia e disse que “as questões patrimoniais estão sendo devidamente apreciadas pelo Poder Judiciário”.

Atual secretário nacional de Saneamento no Ministério das Cidades, Leonardo afirmou ainda que, como inventariante escolhido pela família, atua para “zelar pelo bem do espólio e de todos os herdeiros, inclusive do nosso outro irmão menor, evitando assim os privilégios indevidos pretendidos por ela”, em referência à ex-madrasta.

“Portanto as afirmações da Sra. Hortência, em sua rede social pessoal, não são verdadeiras, de forma que as transgressões serão levadas ao conhecimento das autoridades”, diz a nota.

Ataque a ‘traidores’ e detalhes do namoro

Desde agosto, quando abriu seus perfis em redes sociais já em meio à disputa pelo espólio do marido, Hortencia vem publicando detalhes da intimidade do casal Picciani e ventilando alfinetadas àqueles que considera terem traído o ex-presidente da Alerj.

Há cerca de dois meses, em vídeo no qual explica o porquê de ter passado a se posicionar nas redes, Hortencia afirmou que desejava passar a limpo a história do marido e do casal. Picciani, 33 anos mais velho, se casou com Hortencia em 2014, quando presidia a Alerj. Na ocasião, o deputado estadual era um dos principais caciques do antigo PMDB (atual MDB) no Rio, partido do então governador Luiz Fernando Pezão e de seu antecessor, Sérgio Cabral. Ambos compareceram ao casório.

“Porque o estereótipo que muitos que não me conhecem obviamente vão ter de mim é a garota ‘novinha pistoleira’, que seduziu um cara rico, poderoso e muito mais velho só para se dar bem, e não foi nada disso. Jorge me ganhou na insistência, na inteligência e na forma romântica e respeitosa que me tratava. Me encheu de flores e chocolate até que eu topei sair com ele”, afirmou a viúva no vídeo em questão, publicado em setembro deste ano.

Nas redes, Hortencia alterna postagens de momentos íntimos, como fragmentos de cartas amorosas escritas por Picciani e vídeos do ex-deputado brincando ao lado dos filhos, com análises políticas sobre o comportamento de antigos aliados e adversários do marido.

Hoje deputado federal pelo PDT, Max Lemos é um dos alvos da viúva, que lhe atribuiu a pecha de “traidor” por ter se afastado de Picciani mesmo sendo padrinho de seu casamento com Hortencia. Lemos se distanciou dos Picciani em 2019, ano seguinte à sua eleição como deputado estadual, e deixou o MDB, partido até hoje comandado pelos filhos do ex-presidente da Alerj.

Hortencia também já alfinetou o deputado estadual Samuel Malafaia (PL-RJ), irmão do pastor Silas Malafaia, por ter votado pela manutenção da prisão de Picciani em 2017 mesmo sendo, nas palavras da viúva, frequentador de sua residência. De acordo com Hortencia, a relação do irmão de Malafaia com Picciani era próxima a ponto de reunir pastores para ministrar orações em prol do casal, numa época em que tentavam engravidar.

Outro alvo recente foi o ex-deputado Marcelo Freixo (PT). Segundo Hortencia, Freixo emplacou a CPI das Milícias na Alerj com apoio de Picciani mesmo tendo, nas palavras da viúva, uma “trajetória pequena” até então. Hortencia diz ter se incomodado com o fato de o então deputado estadual, após alcançar maior projeção política com a CPI, também ter votado a favor da manutenção da prisão de Picciani.

Criada na Zona Norte do Rio, entre a casa do pai, no Complexo do Alemão, a residência da mãe em Inhaúma, Hortencia é formada em jornalismo e se aproximou de Picciani após um estágio como assessora da presidência do PMDB no Rio, em 2012. Com 24 anos à época, ela deixou o posto e assumiu um cargo comissionado no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Atualmente, além da campanha nas redes sociais, ela cursa faculdade de Direito e estagia na Defensoria Pública do Rio.

“Minha vida é uma novela, mas uma novela de aprendizados”, escreveu Hortencia no início deste mês.

Fonte: O Globo

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