20/06/2024
Política

Ter um lado, sem ficar isolado

Por Douglas da Mata

Ninguém duvida que o prefeito de Campos dos Goytacazes tenha uma orientação política conservadora.

O histórico das alianças de seu grupo político, e a posição recente dos que militam mais próximos ao seu pai, o ex-governador Garotinho, não permitem outra conclusão.

Por isso é surpreendente, para alguns, o efetivo sucesso do atual prefeito Wladimir Garotinho em circular entre as mais variadas forças políticas dos mais variados espectros ideológicos.

Porém, para os mais atentos, isso não é surpresa.

Desde que desceu do palanque, o prefeito tentou, e com alguns não foi longe, é verdade, construir um amplo consenso com aqueles que ele enfrentou nas urnas.

Essa estratégia não se resumiu ao plano local, e reverberou em aliança estaduais e nacionais, quando o prefeito peregrinou entre gabinetes das Laranjeiras até Brasília, desde a bem sucedida negociação da rolagem das dívidas com a CEF, passado pela costura de emendas parlamentares com a vinda de recursos extras, e no caminho, um acordo como Governo do Estado que estabilizou um início de gestão conturbada pela quebradeira patrocinada pelo governo Rafael Diniz.

Diz a lenda que o ex-prefeito Rafael Diniz, quando ia a Brasília, parecia mais rejeitado que cupim em rodízio.

E o que havia, já que Rafael é conhecido pelos modos gentis e simpatia pessoal?

Faltava entender que governar é olhar para frente e esquecer o retrovisor.

Rafael, sabemos, se dedicou a um governo de demolição, pois se dedicou a tentar destruir toda rede social criada pelos Garotinhos.

Esse comportamento subtraiu dele a legitimidade para conversar com pessoas, para negociar e propor alternativas, já que sua pauta era uma só:

Arrocho e aumento da desigualdade.

Ninguém, nem os conservadores mais empedernidos querem se associar a uma agenda dessas.

Desse modo, ficou sozinho.

Semana passada, o prefeito Wladimir pode experimentar o contrário, e chegou ao ápice de sua estratégia de agregação política, a aprovação de 540 milhões de reais para renovação da frota de ônibus da cidade, pelo PAC mobilidade do governo Lula.

Se fosse simplesmente essa quantia para resolver um grave problema da gestão, até aqui muito bem avaliada, não seria pouco.

A questão é que esses recursos são muito mais que veículos.

A aquisição de tamanha quantidade de ônibus elétricos e movidos a diesel mas menos poluentes, pois tecnologicamente mais modernos, vai exigir investimentos em muitas outras áreas, como geração e distribuição de energia, alteração de vias, redes de manutenção de veículos, oficinas, etc.

Em outras palavras, empregos.

Ao mesmo tempo, há outra dimensão não menos importante:

A recuperação do protagonismo da cidade, e da confiança política depositada por um governo federal de outra ideologia, mas que reconhece o esforço do prefeito conservador em tratar as causas prioritárias com a maturidade necessária.

Ao seu lado, o prefeito Wladimir parece ter entendido o atual momento da história, e esse entendimento parece ser, justamente, aquele desejado nas esferas superiores de governo e política em Brasília:

Ter lado não é isolar-se.

Há uma agenda social, um passivo de desigualdade e pobreza que têm que ser enfrentados com postura de estadista, e não com mesquinharia política.

Disputar a preferência do eleitorado não significa esquecer que essa disputa é pelo bem desse eleitorado.

O PAC da mobilidade e os recursos conseguidos pelo prefeito junto ao presidente é como um chamado, que foi atendido, para a construção de uma interlocução política que sirva ao eleitor e não se sirva do eleitor.

Podemos dizer que tudo vai dar certo ou que tudo será um mar de rosas?

Claro que não!

Não há ingênuos em política.

No entanto, algo é certo:

O ódio nunca foi um bom conselheiro, nem nunca serviu para pavimentar carreiras políticas de sucesso.

O PAC e os novos ônibus são a prova que o diálogo é um bom combustível para o futuro.

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