Servidores públicos do Rio são vítimas do golpe da renegociação de empréstimos consignados

Real,dinheiro, moeda

Servidores públicos do Rio têm sido vítimas do golpe da renegociação de empréstimos consignados. Os criminosos propõem à vítima fazer novos empréstimos e entregar esse dinheiro para aplicações financeiras.

Como contrapartida, a vítima recebe os valores que teria de pagar à instituição financeira onde fez o empréstimo e mais um bônus. Mas depois de um tempo, a empresa que prometeu tudo isso para de pagar e a vítima fica com as dívidas.

A oferta com jeito de milagrosa apareceu como um alívio, mas escondia mentiras e maldades, como conta a professora da rede pública de ensino, vítima do golpe do empréstimo. Em setembro de 2019, ela recebeu a ligação de uma financeira oferecendo a renegociação de antigos empréstimos que ela tinha com o banco.

“Ela tinha acesso aos valores dos empréstimos consignados que eu tinha no meu contracheque. Então, ela me ofereceu um valor para cobrir esses valores, como se fosse esse refinanciamento, e ainda me dar um bônus, uma bonificação de 15% desse valor. Eu questionei porque eles fariam isso, o que eles ganhariam. Ela falou que era uma empresa visionária, e que eu ganharia e eles também. Eu que me entendi sempre uma pessoa desconfiada e antenada tenho vergonha de ter caído numa situação dessa, nesse golpe”, contou a professora.

Geralmente esse golpe acontece com quem tem empréstimos consignado em bancos. E a maioria das vítimas é servidor público, que tem os valores debitados diretamente na conta salário, como explica a delegada Raíssa Celles.

“Esse crédito consignado permite que sejam feitas prestações divididas em até 72 meses. E o que o golpista oferece à vítima? Ele oferece: 10% desse valor ficaria com a vítima, os outros 90% do empréstimo, a vítima repassa a essa empresa através de um contrato de cessão de crédito. Com qual promessa? De que a empresa realize operações no mercado financeiro que seriam de alta rentabilidade e, além de pagar todos os valores do empréstimo, até o seu término, a empresa ainda prometia, de tempos em tempos, dar à vítima parte do lucro que ela iria obter com os negócios realizados”, contou a delegada.

Um relato em comum de quem acaba caindo nesse golpe do empréstimo mostra que os golpistas são bem articulados, buscam uma relação de confiança e revelam que sabem tudo sobre a situação financeira da vítima. Ou seja, têm acesso a informações restritas.

E as abordagens acontecem tanto por telefone quanto presencialmente. Como aconteceu com uma vítima que mora na Zona Norte e pediu para não ser identificada. A servidora pública federal tinha um empréstimo de R$ 10 mil no Banco do Brasil. Em setembro passado ela recebeu a ligação de um homem que se dizia ser consultor de uma financeira chamada MRX.

“Ele se veste muito bem, bem articulado e tem uma técnica para poder convencer uma pessoa. Ele vai seduzindo você, que vai conseguir quitar seu empréstimo, porque você não vai pagar as parcelas. A empresa vai assumir as parcelas. Por exemplo, ele sabe que você tem uma conta no banco. Ele fala a conta, sabe o empréstimo, sabe quanto está na parcela, sabe endereço, telefone, sabe tudo. Me surpreendeu porque os nossos dados, que teriam que ser sigilosos, estão abertos para esses estelionatários. eu comecei a confiar”, contou a vítima.

O homem foi à casa da vítima. E a convenceu a pegar dois empréstimos, um de R$ 5 mil e o outro de R$ 48 mil, que seriam aplicados. E com os rendimentos pagariam as dívidas mensais da vítima.

“Aí ele fala assim: tem uma pessoa que vai ligar, se identificar como BMG e você a todas as respostas vai ter que dizer sim, sim, sim. Só isso, para não gerar dúvida e ser liberado esse valor para cair na sua conta”, disse a vítima.

Mas o endividamento estava só começando. No mesmo dia, os valores estavam na conta. E 30 minutos depois que o consultor foi embora da casa dela, a vítima recebeu uma ligação alertando que era um golpe. Mas que havia uma solução para quitar a nova dívida: transferir imediatamente todo o dinheiro. A telefonista passou a conta de uma terceira empresa chamada Nexus. Segundo a vítima, esse foi o segundo golpe.

“Ela falou: se (o empréstimo) não era para você, você pode devolver ao banco. Devolve ao próprio banco BMG, eu sou do BMG. Ela se identificava como se fosse funcionária do BMG. Mas como eu disse como posso acreditar em você? Eu não sei se você é da mesma máfia que a dele. Ela respondeu: porque eu posso emitir um contrato aqui pelo seu e-mail e verificar que tem, e realmente eu verifiquei, que tinha o logotipo. Depois que terminou, liguei: Patrícia, não devolveu a minha margem, está lá a dívida. Ela falou assim: mas a empresa não está te pagando a parcela? você não está sendo ressarcida? Mas eu não pedi isso. Eu pedi para devolver a minha margem e para liquidar. Está lá a dívida”, contou a vítima.

A delegada Raíssa Celles pede para que as pessoas fiquem atentas e desconfiem sempre que as vantagens oferecidas sejam muito grandes.

“Desconfie quando a vantagem for muito grande. No existe um negócio extremamente vantajoso. Se não vai ser prejuízo para quem está te oferecendo, né? Desconfie e procure pesquisar no mercado melhores taxas, empresas com credibilidade e sempre tendo em mente que é para desconfiar quando a vantagem for muito grande”, disse a delegada.

A servidora pública agora tem uma dívida de mais de R$ 100 mil com o banco. E é descontado todo mês R$ 1.500 do salário dela.

O caso foi registrado na 21ª DP (Bonsucesso). A orientação é tomar cuidado e registrar o caso, procurar a polícia com todos os documentos possíveis assim que perceber que se trata de um golpe.

“Nós orientamos que se você pretende realizar um empréstimo consignado dê preferência a instituições financeiras e bancos cadastrados pelo Banco Central, autorizados a realizar esse empréstimo. Caso você vá fazer essa operação através de uma empresa intermediadora, verifique a existência dessa empresa. Ela tem que ter CNPJ, tem que estar cadastrada, verifique em sites para você ver a credibilidade, como essa empresa está se portando no mercado”, disse a delegada.

A polícia informou que investiga os casos mostrados na reportagem e que aguarda as vítimas na delegacia com mais informações.

A empresa MRX Promotora de Negócios disse que já recebeu relatos de casos parecidos com os relatados. E que apurou que se trata de uma outra empresa, com o nome parecido. As outras empresas citadas foram procuradas, mas não deram resposta.

Fonte: G1

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *