Operação encontra ‘grande quantidade de dinheiro’ na casa de secretário preso no RJ e mira corrupção, diz PF

O secretário de administração penitenciária do Rio, Raphael Montenegro, foi preso nesta terça-feira (17). A operação apura a negociação de acordos entre a cúpula da Seap e a facção criminosa Comando Vermelho . Há suspeita de corrupção.

A informação foi revelada em entrevista coletiva realizada pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal.

Na casa de Montenegro, segundo a Polícia Federal, foi encontrada “grande quantidade de dinheiro”. A prisão do trio é temporária, com prazo de cinco dias.

“A questão da vantagem indevida, se identificou uma capitalização política. Com o cumprimento do mandado de busca hoje é que vai se aprofundar, inclusive para saber se houve vantagem pecuniária. Foi encontrada na casa do principal alvo uma grande quantidade de dinheiro. Há fortes indícios de manipulação, mas qual é a vantagem indevidamente auferida é, a partir de agora, com as buscas, que vamos aprofundar” , , afirma o superintendente da Polícia Federal, Tacio Muzzi.

Foram presos ainda dois servidores da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap): Wellington Nunes da Silva e Sandro Faria Gimenes.

Segundo as investigações, a cúpula da Seap negociou acordos com chefes do Comando Vermelho — a maior facção criminosa de tráfico de drogas do estado — “em troca de influência sobre os locais de domínio destes traficantes e outras vantagens ilícitas”.

Durante a investigação, chamaram a atenção da PF as visitas que Montenegro fez a chefes do Comando Vermelho encarcerados no Paraná.

“É extremamente sensível porque tivemos indícios de que integrantes da administração da Seap teriam negociado com lideranças para que essas lideranças pudessem voltar ao cumprimento da pena no Rio de Janeiro”, afirma o procurador regional da República Carlos Aguiar.

Entre os acordos, estariam:

  • o retorno de criminosos presos na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, para o Rio de Janeiro;
  • a entrada de pessoas e itens proibidos em unidades prisionais fluminenses;
  • a soltura irregular, em 27 de julho, de Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, de 50 anos, “um criminoso de altíssima periculosidade, contra quem havia mandados de prisão pendentes”.

Montenegro foi exonerado, segundo decreto do governador Cláudio Castro (PL) publicado nesta terça-feira (17) no Diário Oficial.

Visitas a chefes do CV

O nome da operação, Simonia, faz referência a uma prática medieval em que detentores de cargos trocavam benefícios ilegítimos por vantagens espúrias. A força-tarefa também contou com o Ministério Público Federal (MPF) e o Departamento Penitenciário Federal (Depen).

Montenegro foi nomeado secretário no fim de janeiro por Castro, à época ainda governador em exercício, em substituição a Marco Aurélio Santos.

O governador nomeou para a Seap o delegado da PF Victor Hugo Poubel.

Soltura de Abelha

Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, é o “presidente do Comando Vermelho” nas cadeias do Rio. Ele faz parte do conselho que decide tudo que acontece na facção.

Em 2020, Abelha, já encarcerado, foi apontado como um dos mandantes da invasão ao Complexo de São Carlos. Mesmo com um mandado de prisão expedido à época, Abelha permaneceu no regime semiaberto — quando deveria ser transferido para uma prisão mais rígida.

No dia 14 de julho deste ano, o juiz Alexandre Abrahão, do 3º Tribunal do Júri, decretou uma nova prisão do traficante, pela morte de Ana Cristina Silva, de 26 anos.

Apesar disso, a Seap seguiu com os trâmites para libertá-lo. No dia 26, quando o sistema acusava essa e outras pendências, a secretaria consultou a Delegacia de Polícia Interestadual (Polinter) sobre a soltura. Às 20h57, a especializada respondeu que havia aquele mandado de prisão e que, portanto, Abelha não deveria ser solto.

A defesa de Abelha, no entanto, apostou na estratégia de enganar a Justiça. Advogados foram ao Plantão Judiciário alegando que só havia um mandado de prisão, já recolhido, mas a juíza de plantão negou a soltura.

Mesmo assim, no dia 27, por volta das 8h, a Seap acabou soltando Abelha.

Segundo o delegado responsável pelo caso, Heziel Martins, as provas vão muito além das conversas com lideranças do Comando Vermelho. O delegado citou a liberação de “Abelha”.

“Além das conversas, as ações foram sucessivas. Não se resumiram a essa negociação abstrata; se concretizou em pareceres, em atos. O terceiro passo foi o mais grave, a liberação inidônea de um preso que tinha outros motivos para continuar custodiado. As provas vão bastante além de uma mera conversa. O conteúdo da tratativa por si só fere alguns princípios da administração pública”.

G1*

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