MPRJ investiga denúncia contra ‘Guardiões do Crivella’, grupo pago para impedir críticas a hospitais municipais

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) instaurou, nesta terça-feira (1), investigação sobre possível prática de crimes que teriam sido cometidos pelo prefeito Marcelo Crivella pela montagem e manutenção de um serviço ilegal na porta dos hospitais municipais.

A investigação ficará a cargo da Subprocuradoria-Geral de Justiça de Assuntos Criminais e de Direitos Humanos, com apoio do Grupo de Atribuição Originária Criminal da Procuradoria-Geral de Justiça.

Além do crime de associação criminosa, previsto no artigo 288 do Código Penal, será avaliada a prática da conduta criminosa do artigo 1º, inciso II do decreto lei 201/67, que trata da responsabilidade de prefeitos.

A situação foi mostrada na noite de segunda-feira (31) em reportagem do RJ2. O grupo de funcionário públicos age para impedir críticas ao atendimento nas unidades de saúde.

Para isso, gritam, ofendem e hostilizam repórteres que tentam entrevistar pacientes em frente às unidades.

Em duplas, os funcionários pagos pela prefeitura do Rio tentam intimidar cidadãos para que não falem mal do governo municipal.

Vereadores também vão encaminhar uma denúncia ao MPRJ. Segundo Paulo Pinheiro (PSOL), integrante da Comissão de Saúde da Câmara, a atitude da prefeitura de pagar com dinheiro público a profissionais para desinformar a população , impedindo que a imprensa exerça seu trabalho, é “irresponsável”.

“Nós não vamos admitir isso como um caso comum. Por isso estamos entrando com uma representação no Ministério Público, solicitando abertura de um inquérito, para caracterizar o quadro de improbidade administrativa realizada pelo prefeito da cidade do Rio de Janeiro”, afirmou Pinheiro.

A situação também deverá servir de base para o pedido de uma investigação na própria Câmara Municipal.

“Vamos propor ao presidente da câmara que esse cidadão Marcos Luciano seja convocado, porque ele precisa se justificar. E mais: vamos propor a instalação de uma CPI”, afirmou a vereadora Teresa Bergher (PSDB).

“A denúncia é muito grave. Isso é desvio de finalidade, de funções públicas – é gente paga com dinheiro público para fazer coisas que não são atribuições do poder público. Portanto, isso é improbidade administrativa, é crime de responsabilidade”, avaliou o vereador Tarcísio Motta.

Resumo

A reportagem mostrou que:

  • por grupos de Whatsapp, funcionários públicos são distribuídos por unidades de saúde municipais para fazerem uma espécie de plantão;
  • em duplas, eles tentam atrapalhar reportagens com denúncias sobre a situação da saúde pública e intimidar cidadãos para que não falem mal da prefeitura;
  • O RJ2 teve acesso ao conteúdo dos grupos e viu que, após serem escalados, eles postam selfies para dizer que chegaram às unidades;
  • um dos funcionários aparece em várias fotos ao lado de Crivella e tem salário de mais de R$ 10 mil;
  • quando conseguem atrapalhar reportagens, eles comemoram nos grupos;
  • a prefeitura não nega a criação dos grupos e diz que faz isso para ‘melhor informar a população”.

Entre os participantes de um dos grupos, um telefone chama a atenção. O número aparece registrado como sendo do próprio prefeito, Marcelo Crivella. O Jornal Nacional apurou que o prefeito já usou esse número. A equipe de reportagem ligou, mas ninguém atendeu.

As ‘invasões’

Em uma entrevista ao vivo para o Bom Dia Rio em 20 de agosto, no Hospital Rocha Faria, dona Vânia cobrava uma transferência para a mãe que tem câncer, mas não conseguiu terminar a conversa com a repórter Nathália Castro porque dois homens começaram as agressões verbais e gritos de “Bolsonaro”.

A repórter pediu desculpas para Vânia, encerrou a reportagem e as agressões dos dois homens continuaram, gerando uma confusão.

Dias depois, no Hospital Rocha Faria, o repórter Ben-Hur Corrêa falava da falta de equipamentos de raios-x e da situação do caixa da prefeitura, quando dois homens impediram a reportagem.

Em seguida, um dos homens botou o crachá e foi em direção ao interior do hospital.

Os ataques não acontecem por acaso. Ao contrário: são organizados e pelo poder público.

Os agressores são contratados da prefeitura do Rio. Recebem salários pagos pelo contribuinte para vigiar a porta de hospitais e clínicas, para constranger e ameaçar jornalistas e cidadãos que denunciam os problemas na saúde da capital fluminense.

G1*

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