Estado do Rio pode sofrer com a falta de diesel

O estado do Rio de Janeiro corre o risco de sofrer um desabastecimento de diesel no segundo semestre deste ano, alertam especialistas. Este é um problema que vai afetar não apenas o crescimento econômico, mas também a geração de empregos em municípios como Campos, Macaé, Rio das Ostras, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, que têm suas economias fortemente atreladas à logística de transporte por caminhões – veículos que dependem deste combustível.

Com o prolongamento da guerra na Ucrânia e a falta de planejamento por parte do Governo Federal, os estoques de diesel nos postos vêm diminuindo nas últimas semanas, sem que as distribuidoras consigam fazer a reposição necessária. O quadro tende a se agravar entre julho e outubro, meses em que o consumo do combustível aumenta por causa do transporte das safras do agronegócio.

Para José Maria Rangel, ex-membro do Conselho de Administração da Petrobrás, este é um problema que poderia ter sido evitado, se não fossem decisões equivocadas adotadas pelo governo federal a partir de 2016.

Desde o ano 2000, o Brasil importa parte do diesel que consome porque as refinarias do país não produzem o suficiente para atender à demanda. No ano 2021, o combustível comprado do exterior atendeu 21% do consumo interno.

Até o governo da presidenta Dilma Rousseff, essa importação era feita exclusivamente pela Petrobrás, que adotava uma política de controle dos preços. Ou seja, nem todos os reajustes no mercado internacional eram repassados aos consumidores.

– Isto começou a mudar em 2016, quando o governo de Michel Temer implantou a política de Preços de Paridade de Importação (PPI), que vincula o preço dos derivados de petróleo nas refinarias ao preço do produto em dólares no mercado internacional. Para criar um ambiente favorável à venda de metade do parque de refino da Petrobrás, Temer também reduziu as cargas das refinarias de 90% para 65%, permitiu que empresas privadas importassem diesel e reduziu o percentual de importação feito pela Petrobrás. Esta política foi mantida pelo governo Bolsonaro, que deixa clara sua intenção de vender a Petrobrás e todo o seu patrimônio – observa José Maria.

Outro problema diz respeito à infraestrutura. As obras das novas refinarias que os governos do PT iniciaram em vários pontos do Brasil – e que poderiam suprir a demanda interna de diesel e outros combustíveis – foram paralisadas. É o caso do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco.

Com a guerra da Ucrânia, o quadro tende a se agravar. Além do aumento no preço internacional do petróleo e derivados, os Estados Unidos – maior fornecedor de diesel para o Brasil – está sendo pressionado a ampliar seu comércio com os países da Europa. Nesta queda de braço pelo diesel, há uma chance enorme de o bloco europeu sair ganhando, por questões geopolíticas.

CAMINHOS POSSÍVEIS

Na avaliação de José Maria, há três caminhos necessários para evitar o desabastecimento. O primeiro é o retorno da política de preços praticada até 2016, pondo fim à paridade. O segundo caminho é ampliar o percentual da Petrobrás no volume de importação. O terceiro caminho, igualmente importante, seria a retomada imediata dos investimentos em novas refinarias para que o Brasil dependa cada vez menos das importações.

– A grande questão é a política adotada por Bolsonaro. Como confiar num governo que não tem capacidade para enfrentar o problema de frente, quer se desfazer da Petrobras, tenta responsabilizar os governadores pelo caos e ainda penaliza o povo com altas seguidas nos preços dos combustíveis? Sem competência para fazer a coisa certa e sem compromisso com os interesses da população, não adianta ficar nessa eterna troca de ministros e presidentes da Petrobrás – avalia o líder petroleiro.

Para José Maria, o drama da falta de diesel se torna ainda maior porque os reflexos vão afetar as pessoas que mais precisam. “Os caminhoneiros, tão importantes para o transporte das riquezas do país, simplesmente não terão como trabalhar. E todo mundo sabe: quando a logística de transporte não funciona, os preços dos produtos disparam nas feiras e nos supermercados, prejudicando principalmente os mais pobres. Essa é a política que não desejamos. Mas não podemos baixar a cabeça; é preciso buscar soluções”, afirma.

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