Em Campos dos Goytacazes, a distância também é uma forma de desigualdade

Há trabalhos acadêmicos que cumprem corretamente as exigências formais de um curso universitário. E há aqueles que, além disso, ajudam a enxergar com maior clareza problemas que estão diante de nós, mas que frequentemente são tratados de forma fragmentada. É nesse segundo grupo que situo o trabalho de conclusão de curso de Gustavo Araujo Bezerra, intitulado A mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes (RJ): mecanismo de perpetuação da segregação socioespacial ou ferramenta de garantia do direito à cidade?.
O trabalho foi apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e aprovado em 2 de julho de 2026. Tive a satisfação de orientar Gustavo Araújo nessa pesquisa, que combinou a aplicação de 151 questionários com usuários do transporte coletivo, entrevistas com representantes do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) e observações de campo. O estudo retira a mobilidade urbana do terreno estreito da engenharia de tráfego e a coloca onde ela efetivamente deve estar: no centro da discussão sobre desigualdade, segregação socioespacial e direito à cidade.
A principal contribuição do estudo está em demonstrar que, em Campos dos Goytacazes, a experiência de circular pela cidade é profundamente condicionada pelo lugar onde se mora. Os moradores dos bairros periféricos e dos distritos mais distantes enfrentam maiores tempos de deslocamento, maior dependência do transporte coletivo e mais dificuldades para acessar trabalho, educação, saúde e lazer. A distância em relação ao centro não é apenas uma medida em quilômetros: ela se transforma em tempo perdido e em redução concreta das possibilidades de participação na vida urbana.
A pesquisa mostra ainda que os moradores das áreas mais distantes avaliam o sistema de forma mais negativa, especialmente quanto ao tempo de deslocamento, à disponibilidade do serviço e ao acesso aos equipamentos urbanos. Parte da população recorre a modalidades alternativas ou informais para contornar as limitações do sistema formal. O que poderia parecer uma simples escolha de transporte revela-se, assim, uma estratégia diante de um sistema incapaz de garantir condições equivalentes de circulação aos diferentes territórios do município.
É justamente nesse ponto que a mobilidade deixa de ser apenas uma questão de ônibus, linhas e horários. O morador periférico não está somente mais distante dos serviços e oportunidades: ele paga por essa distância com horas adicionais de deslocamento, menor previsibilidade e maior dependência de um sistema precário. A segregação socioespacial se expressa, portanto, não apenas no lugar onde cada grupo social consegue morar, mas também nas condições concretas que possui para acessar o restante da cidade.
Gustavo Araújo também identifica uma distância significativa entre o planejamento formal e a realidade vivida pelos usuários. Embora o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável contenha diretrizes voltadas à acessibilidade, à integração dos transportes e à mobilidade sustentável, sua implementação permanece limitada. Persistem problemas de cobertura, frequência e integração do transporte coletivo, além da ausência de uma rede cicloviária efetivamente conectada.
Mas talvez a conclusão politicamente mais incômoda do trabalho seja outra. Entre 1999 e 2024, Campos dos Goytacazes recebeu mais de R$ 37 bilhões em royalties e participações especiais do petróleo. Ainda assim, chegou a 2026 com um sistema de mobilidade incapaz de assegurar condições minimamente equitativas de acesso ao seu território. A disponibilidade excepcional de recursos não produziu uma estrutura capaz de reduzir desigualdades territoriais historicamente acumuladas.
Isso significa que o problema de Campos não pode ser atribuído simplesmente à falta de dinheiro. A questão está também nas escolhas políticas feitas ao longo de décadas sobre onde investir, que territórios conectar e quais grupos sociais priorizar. A precariedade da mobilidade não é apenas uma deficiência administrativa ou operacional; ela é também resultado de uma determinada forma de produzir e governar o espaço urbano.
Como orientador deste trabalho, considero especialmente relevante que uma pesquisa produzida por um novo cientista social formado pelo curso de Ciências Sociais da UENF ofereça uma contribuição tão concreta ao debate sobre Campos dos Goytacazes. A universidade pública cumpre uma de suas funções mais importantes quando forma estudantes capazes de olhar criticamente para o território em que vivem e produzir conhecimento sobre suas contradições.
O estudo de Gustavo Araújo mostra, afinal, que a mobilidade pode funcionar tanto como instrumento de integração quanto como mecanismo de segregação. Em Campos dos Goytacazes, as evidências reunidas sugerem que, para uma parcela significativa da população, ela ainda opera muito mais como barreira do que como garantia de direitos. Enquanto o acesso à cidade continuar dependendo do lugar onde se mora, o direito à cidade continuará sendo distribuído de forma profundamente desigual.
Quem desejar baixar o arquivo contendo a monografia de graduação de Gustavo Araújo, basta clicar [Aqui!].
*Marcos Pędłowski – Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental.


