Política

A maior eleição da história da humanidade

urna
Urna Eletrônica

Por Douglas da Mata

É bom que se diga:

Nenhuma ciência é neutra, muito menos a estatística, como gostam de vender os institutos de pesquisa.

Exemplo antigo:

Dentre os moradores do meu bairro, ou da minha cidade, está Jeff Bezos, ou Elon Musk.

Seria correto dizer que a renda per capita daquele bairro ou município é a maior do planeta.

Porém, isso não quer dizer que a riqueza esteja distribuída entre todos os moradores…

Em outras palavras, a estatística (de pesquisas) pode servir a um monte de interesses, inclusive falar a verdade, ou apenas, parte dela.

Foi assim que, de instrumento legítimo de sondagem das vontades populares em eleições, ou para definir gostos e relações de consumo para os departamentos de marketing de empresas, a pesquisa eleitoral se transformou numa poderosa ferramenta de propaganda eleitoral, por um motivo simples.

O eleitor, ou boa parte dele, adere àquilo que é chamado de voto útil, ou em outras palavras, o eleitor quer votar em “quem vai ganhar”…e para esse eleitor não importa muito a cor partidária ou a plataforma de propostas.

Deste modo, não é errado supor que, mesmo considerando uma suposta lisura dos institutos, a divulgação de resultados destas pesquisas acabam por influenciar resultados finais, naquilo que é conhecido como profecia que se auto realiza.

Ao martelarem que esse é o resultado provável, os institutos de pesquisas acabam por confirmar esse prognóstico por indução de comportamento.

Mas por que as pesquisas têm se afastado tanto do nível de acerto que detinham?

Porque outras variáveis entraram no circuito, além de todas as outras que já existiam.

Sempre houve a mentira ou hesitação do eleitor, mudança de humor do eleitorado, e fenômenos não capturados pelas sondagens quantitativas.

Tudo isso ia para margem de erro.

E quais foram as variáveis novas?

As principais são a internet e as redes sociais, agora, a IA.

Os dados produzidos pelos nossos fluxos de acessos às redes sociais e às páginas de buscas produzem uma montanha de informações do tamanho do Monte Everest.

A análise desses dados já vem sendo usada há muito tempo, mas o advento do uso de IA abre fronteiras inimagináveis, contribuindo para o acúmulo colossal de poder dos donos dessas tecnologias (e as elites, aos seus redores), especialmente na capacidade de mobilizar atenção , alterar comportamento e induzir decisões do eleitor…

Bem, e daí? Você deve estar se perguntando, caso tenha chegado até aqui…

Como isso explica a “nova” onda da extrema direita, o encolhimento do centro, e, por exemplo, a vitória de Douglas Ruas, e a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno?

Engraçado é ler alguns analistas tratando com mal disfarçado assombro esse deslocamento da centro-direita para sua extremidade.

Esse evento não é inédito na política brasileira, muito menos, na mundial…

Primeiro, é preciso lembrar: a hegemonia, ou o domínio da política mundial sempre esteve com os conservadores.

Raras foram as ocasiões que chefes de governo, presidentes ou primeiros-ministros, chamados progressistas, tiveram uma coalizão de forças favoráveis nos Parlamentos ou nos Judiciários de seus países.

Quando isso aconteceu, ou parecia que ia acontecer, foram derrubados por golpes.

O PODER sempre esteve com os conservadores, enquanto que, ocasionalmente, os governos estavam com as “esquerdas”, que sempre tinham que se curvar ao centro e à direita, caso quisessem manter suas cadeiras.

Lula não foi diferente.

Governou sempre ao centro.

Não foi suficiente para manter a estabilidade de seus mandatos, ora atingido por ataques judiciais, ora por golpes parlamentares, como foi com a presidenta Dilma, sua aliada e sucessora.

A construção de um terreno ideal para o fortalecimento de um campo de extrema direita vem de longe, e tem um efeito irreversível, o qual assistimos agora.

Esse ecossistema político hostil à ponderação e ao “equilíbrio” é parte importante do modelo de negócio das redes sociais e da IA.

Não é coincidência.

No passado, os modelos de negócio da mídia reacional (TV, rádio e cinema) foram cruciais para moldar o modo de operação dos sistemas eleitorais (“o pensamento médio do eleitor médio”)…

Esse modelo, hoje conhecido como analógico, estruturou um sistema político que, no Brasil ou em países da periferia do mundo repetem um padrão:

Países desiguais e pobres quase sempre tem um Parlamento com maioria de conservadores e ricos.

Entender essa lógica é pressuposto para a gente avançar na análise sobre nossas eleições atuais.

Sejam analógicas (jornal, TV, rádio, cinema, etc), sejam digitais e algorítmicas, a política e as eleições são controladas por esses modelos de negócios.

“Tá, tá” você me diz…

“Mas e as eleições deste ano, como explicar? Como vai ficar o segundo turno?”

Não ouso prever, mas há algumas hipóteses que podem ser abordadas.

O Fracasso de Eduardo Paes, ou:
A Crônica de um Cavalo Paraguaio (Anunciado).

Não é opinião de “obra pronta”, do tipo, agora que deu errado, todos dizem o porquê.

São impressões apenas.

Eduardo Paes SEMPRE teve dificuldades em espalhar sua votação para além dos limites da cidade que governou.

Talvez Niterói, algumas cidades da Baixada, ou na serra, por aí.

Esse ano ele levou 12 das 92 cidades.

Com esse cálculo seria (como foi) impossível vencer, pelo simples motivo de que sua parcela de eleitorado na Capital não bastaria.

Sua presença no interior sempre foi superficial, com uma postura que quase obrigava os “aldeões ignorantes da roça” uma adesão automática ao prefeito iluminado da Capital.

A chapa ao senado refletiu sua dubiedade política assim com suas nominatas.

Favor não confundir, como Eduardo fez, dubiedade política com postura de “centro”.

Ficou clara essa confusão.

Eduardo Paes, um político que sempre esteve na direita, tentou obter o bônus da relação com o Planalto (Lula), e por outro lado, esconder o Presidente para agradar o eleitor bolsonarista fluminense (maioria).

Paes quis ser tudo ao mesmo tempo agora…não foi nada, além da recorrente incapacidade de confirmar um favoritismo gigantesco, que se dissolveu na esteira de algo parecido com arrogância e falta de visão estratégica.

O ataque a Garotinho foi a sentença final.

Ainda que houvesse certa lógica em subtrair os votos do ex-governador para forçar um vitória no primeiro turno, faltou a Eduardo o básico:

Analisar dados, que já deviam indicar a chegada de Ruas e;

Em qualquer cenário, saber que o voto de Garotinho diminuía os votos de Ruas, não dele, Eduardo Paes.

O resto é história.

Agora, a questão nacional.

Lula, missão (quase) impossível.

Toda premissa é inédita até que outra a supere.

As chances de virada são pequenas, e a história afirma que, categoricamente, nenhum segundo colocado no primeiro, ganhou o segundo turno.

No entanto, todo esse acervo de impossibilidades de viradas de um segundo colocado esbarra em outro ineditismo:

Nunca uma eleição concentrou essas formas de modelos de negócios de controle formação de opinião:

Mídia, rede social, pesquisas e IA.

Por isso temos uma campanha extremamente “analógica” dentro das redes, como a do PT, que pôde se tornar tão combativa e algorítmica, a ponto de romper o bloqueio das grandes empresas, como a Meta (dona do WhatsApp, Instagram e Facebook).

Ao mesmo tempo, essa campanha pôde sair do isolamento algorítmico das bolhas e das redes, e ir para as ruas, em manifestações gigantescas, que dão o aspecto real e orgânico necessário à luta política e a disputa pelo eleitor…

Claro que isso por si só não basta, é preciso mais.

Neste ponto entra um diferencial: não tem como comparar a substância, o conteúdo e expertise política de Lula e de Flávio Bolsonaro, e isso não é dizer quem deles está certo errado.

Lula apostou suas fichas em atos concretos, jogadas que ele esperava que fossem dar resultado no primeiro turno, mas caso não houvesse tempo hábil, seriam cruciais no segundo.

Até porque, a votação da escala 6×1 ou a PEC da Segurança não dependiam da vontade dele, e sim do Congresso.

Todavia, ele intuiu que essa agenda influenciaria o eleitor na hora decisiva, porque são temas cuja discussão vêm sendo disseminada há meses, ou anos, e tratam das demandas urgentes das pessoas, neste caso, o tempo para viver, ter lazer, descansar e a segurança para fazer isso tudo.

Já no caso das Bets, o cálculo errou no timing, mas acabou por trazer outra vantagem para esse turno.

Lula imaginou que o fim das Bets reverteria em votos imediatos, dado o grande engajamento do tema.

Errou no tempo, como dissemos acima.

Levaram alguns dias, ou os primeiros dias (quinto dia útil de outubro) para que sobrassem nos pagamentos de setembro os valores que antes iam para os cassinos.

Alguns varejos e supermercados já percebem o aumento das vendas e a mudança de alguns itens de consumo, antes eram o básico do básico.

Junto, a percepção real da inflação dos alimentos (verdadeira) também deve ser alterada até a eleição, simplesmente, porque tem mais dinheiro no bolso…

Todos sabemos que a inflação de alimentos dói mais em quem tem menos dinheiro, logo, mais dinheiro, menor a sensação de carestia.

Isso vai mudar a eleição?

Urna e mineração, só depois da apuração.

Enfim, são conjecturas para contribuir para esse interessante debate, em uma eleição que, sem margem de dúvidas, mudará o destino da América do Sul e o resto do mundo.

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