Tabu foi feito para ser quebrado

Por Douglas da Mata
Não é à toa que futebol e as eleições compartilhem tantas emoções e jargões.
Como no esporte bretão, as eleições são fenômenos onde o mais fraco, aquele com menores recursos, enfim, que esteja em franca desvantagem em boa parte do processo, pode sagrar-se vitorioso no fim da apuração.
Favoritismo só se confirma no apito final.
Foi o que houve ontem.
Um senhor de 80 anos, que já esteve preso, desgastado pelo cumprimento de três mandatos, cujo partido governou o país em outros dois, com a presidenta Dilma (até o golpe de 2016), disputou com um adversário bem mais jovem, articulado, que estava a bordo de uma coalizão de forças que saiu em enorme vantagem no “primeiro tempo”, uma “goleada”, digamos assim.
O concorrente contou com uma “torcida” capaz de influenciar o resultado e “empurrar seu time”, como juízes, empresas de tecnologia, presidente dos EUA, todo um aparato da mídia e do chamado mercado financeiro, este último que oscilou números de euforia com o resultado da “primeira parte do jogo”.
Diante de evidências tão poderosas, o concorrente, seguindo pelas metáforas do football, parece ter “subido no salto alto”.
Passou a desguarnecer a defesa, e no ataque optou por firulas e desperdiçou todas as chances de marcar e encerrar a fatura.
Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno direto para gabinetes e acordos, passou a “nomear” auxiliares, e “cassar”, juízes do STF, prometeu medidas duras na economia, bem como “decidiu” as presidências do Senado e da Câmara.
Ao mesmo tempo, considerou que sua superioridade nas redes sociais não só era irreversível, como esqueceu das manifestações de rua.
Já Lula e seu “exército”, ou “time” conjugaram uma tática quase perfeita, pois aliaram uma ofensiva gigantesca nas redes, e a ocupação das ruas com o acordar de uma juventude que até então se mostrava acanhada e apática, meio que hipnotizadas nas bolhas dos algoritmos.
Aqui um parêntese para o “craque” dessa virada, André Janones, o “meio campo” que organizou o jogo, mas também protegeu a defesa, deu passes precisos para o “centroavante” Lula empurrar para o gol, mas fez, ele mesmo, alguns golaços, apesar de ter ficado “um tempo no departamento médico.
Janones “driblou” algoritmos, fez “corta luz” com a Meta, e não se intimidou com a “arbitragem”.
Porém, toda essa disposição e “disciplina tática” não seriam suficientes sem uma contribuição severa de Flávio Bolsonaro e seu time.
Como já dissemos, lá em cima, houve um preciosismo infantil de Flávio e sua equipe.
Esse comportamento cristalizou em momentos chave.
O despreparo se consolidou nos debates.
Já no primeiro debate, Flávio se portou como um adolescente arrogante que desafia uma pessoa mais velha, dando munição às toneladas de ataques nas redes sociais, mas também denunciado pela imprensa.
Ali o primeiro sinal de alerta.
Os mais velhos, que mais se abstiveram no primeiro turno, começaram a pensar em virar e a prestar atenção à disputa.
Na segunda oportunidade, Flávio ficou marcado pelo comentário preconceituoso em relação a mutilação de Lula, e se confundiu no caso da menina morta por um projétil disparado por um fuzil de um PM (de quem Flávio é advogado), chamando a mãe, que estava na plateia, pelo nome da filha, Ana Clara.
Preconceito e violência: esse binômio foi dado de bandeja para o PT, como aquele frangaço do goleiro.
Saindo um pouco das metáforas do ambiente do futebol, o fato é a campanha vitoriosa de Flávio “desaprendeu” o que sabia fazer, e que lhe deu uma vantagem significativa no primeiro turno, “copiando” os erros da campanha de Lula, e a campanha derrotada, no primeiro turno, de Lula, parece ter aprendido com o sucesso conseguido por Flávio na primeira metade da eleição.
Lula passou o primeiro turno imaginando que seus feitos (muito importantes) lhe dariam uma “fidelidade” automática do eleitor, ao mesmo tempo que desconsiderou a importância de colocar essa realidade dentro de uma narrativa digital nas redes sociais!
Com esse trajeto, Lula colheu menos votos até no Nordeste, e viu a diferença nas outras regiões aumentar.
No segundo turno, a necessidade fez o sapo (barbudo) pular.
As redes sociais de Lula subjugaram as redes bolsonaristas, e isso empurrou legiões para as ruas.
A comunicação da esperança retornou, ajudada pelos primeiros efeitos das medidas adotadas por Lula: o fim das Bets, que começou deixar sobrar dinheiro e pôs mais comida na mesa, a perspectiva de mais um dia de descanso, com o fim da escala 6×1, o anúncio de novos programas de renegociação de dívida e perdão dos passivos dos MEI.
Junto a isso, repito: a campanha lulista exacerbou o medo que foi inseminado pelo próprio Flávio.
É inacreditável que um candidato falar em cortar 250 bilhões em “gastos”, sem detalhar onde (e isso já seria complicado explicar), antecipando uma agenda negativa, simbolizado por uma tesoura, que logo foi associada a motosserra do lunático argentino Javier Milei, que reduziu a Argentina a escombros e carne de burro.
Ora, quando falou em tesoura, corte, ao contrário de falar “ajuste”, “reforma”, Flávio subtraiu de si mesmo a agenda da “mudança”, apavorou aposentados e pessoas em situação social desprivilegiada, e até pequenos e médios empresários que vivem do consumo desses setores.
A postura “imperial” de Flávio também incutiu receios em setores moderados de direita, e abriu frestas, até então, impensáveis, em veículos de comunicação tradicionais, e trazendo intelectuais, artistas, e outros campos que estavam indecisos ou não se alinham com o PT e Lula.
O eleitor tende a fazer um cálculo eficiente, quase por instinto, e pensou que um Congresso tão à direita, com um presidente de extrema direita, seria um cheque em branco, ou pior, uma autorização para a implantação de um regime sem oposição.
Flávio apavorou uma parte dos eleitores de centro.
Lula soube aproveitar, e tudo isso ficou evidente ao eleitor nos momentos dos embates ao vivo entre os dois, que já citamos: os debates.
Enfim, parece claro que a comunicação de Lula soube explorar ao máximo o fato dele ter um conteúdo real (biografia, atos de governo) para mostrar, criando uma expectativa de futuro baseada nesse“background”, o que, no primeiro turno, não soube fazer.
A seu lado, Flávio Bolsonaro inverteu o sinal, e se transformou a percepção de mudança para dúvida, e depois, para o medo.
Além da virada em MG, a diferença entre Lula e Flávio no Nordeste aumentou, e a vantagem de Flávio nos demais estados diminuiu.
As abstenções diminuíram, como brancos e nulos.
Nem o boicote sincronizado e articulado dos transportes conseguiu reverter essa onda pró Lula, e não é incorreto supor que se houvesse transporte, a vantagem seria maior.
Para quem acha que Lula terá muita dificuldade no Congresso é bom lembrar:
Lula percebeu a força das ruas e das redes sociais e não vai abrir mão desse capital para governar de forma mais direta.
Há, senão uma virada internacional, pelo menos um movimento de estancar a onda de extrema direita, com possíveis resultados negativos para Trump, Milei, Netanyahu em Israel, e na Europa uma massa de jovens empurra a direita para trás, dando fôlego às pautas progressistas, ou anti extrema direita.
Se isso vai se consolidar, o tempo dirá.
Apesar das bancadas muito grandes do PL, é certo que esses assentos foram perdidos pelo centrão, que já começa a se reorganizar e vai cooptar parte dessa bancada do PL, que não vai passar quatro anos sem emendas, sem cargos no governo federal, e no caso do Nordeste e de outros estados governados pelos aliados de Lula, sem cargos nas estruturas estaduais.
Todo burro come milho, e Lula sabe disso, e desta vez vai ter que usar essa lógica como nunca.
Os bolsonaros passam a história com dois feitos “inéditos”, o pai, Jair, foi o primeiro presidente a não ser reeleito, enquanto Flávio, o filho, foi o primeiro candidato à presidência a ganhar o primeiro turno e perder o segundo.
O desgaste do bolsonarismo também ajudará na reconfiguração do Congresso e da bancada do PL.
Os mais espertos vão buscar lugar ao centro da política, imaginando uma direita mais inteligente e propositiva, menos histérica e instagramável, com o objetivo de disputar a sucessão de Lula de forma mais competente.
Aguardemos.

