24/06/2026
Política

Eduardo Paes conheceu o Porto do Açu. Falta agora conhecer São João da Barra

Eduardo Paes no Porto do Açu
Eduardo Paes no Porto do Açu. Foto: Divulgação

Por Marcos Pędłowski

A visita ao enclave multinacional revelou entusiasmo com os negócios bilionários do empreendimento, mas nenhuma curiosidade sobre os agricultores expropriados, os pescadores prejudicados e as promessas que ficaram pelo caminho

Como ocorreu no passado com o então bilionário Eike Batista, o ex-prefeito do Rio de Janeiro e pré-candidato ao governo estadual, Eduardo Paes (PSD), teve seu dia de “Barão de São João da Barra”, coroado pela concessão de um curioso diploma de cidadão sanjoanense. Tudo indica que esta tenha sido uma de suas poucas visitas ao município. O episódio demonstra que, quando se trata de homenagear grandes investidores ou seus representantes políticos, o Legislativo local parece não conhecer limites na distribuição de honrarias.

Como todo político em pré-campanha, Eduardo Paes participou de uma visita cuidadosamente organizada ao Porto do Açu, acompanhado da ainda deputada estadual e ex-prefeita Carla Machado, personagem que poderia ser considerada, sem exagero, uma das principais madrinhas políticas do empreendimento. Durante o roteiro pelo interior do complexo portuário, Paes reproduziu um discurso já conhecido dos entusiastas do projeto, afirmando que o Porto do Açu não seria apenas “uma joia da coroa do Rio de Janeiro”, mas “a coroa inteira”.

A declaração não surpreende. Ao longo de sua trajetória política, Eduardo Paes construiu uma relação particularmente próxima com grandes grupos empresariais. Em seus mandatos à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro, promoveu amplas intervenções urbanas voltadas à valorização imobiliária de determinadas áreas da cidade, mobilizando vultosos recursos públicos para dinamizar territórios posteriormente apropriados pelo mercado como novas fronteiras de valorização econômica.

Também não surpreende que a visita tenha sido conduzida sob a ótica dos números apresentados pela direção do Porto do Açu. Segundo os administradores do empreendimento, o complexo abriga atualmente cerca de 30 empresas, movimenta aproximadamente 7 mil trabalhadores por dia e teria investido mais de R$ 70 milhões em compras e contratações de fornecedores regionais no último ano. O discurso empresarial enfatiza ainda que 75% dos trabalhadores seriam oriundos da região e que a parceria com os municípios vizinhos seria fundamental para sustentar o crescimento do empreendimento.

O problema é que, ao aceitar sem questionamentos essa narrativa corporativa, Eduardo Paes deixou de abordar questões centrais relacionadas à implantação e aos impactos do Porto do Açu. Em nenhum momento explicou como um eventual governo estadual trataria a dívida histórica da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) com centenas de famílias de agricultores que tiveram suas terras desapropriadas para a criação de um distrito industrial que jamais se materializou nos moldes originalmente anunciados. Parte dessas áreas acabou incorporada à expansão do complexo portuário e hoje gera receitas milionárias por meio da locação de terrenos para empresas instaladas no empreendimento.

O fato incontornável é que a implantação do Porto do Açu ocorreu mediante um amplo processo de expropriação de terras produtivas que garantiam renda e reprodução social para agricultores familiares. Paralelamente, comunidades pesqueiras tradicionais passaram a enfrentar crescentes restrições de acesso a áreas historicamente utilizadas para a pesca artesanal. Em especial, os sistemas lagunares do V Distrito sofreram mudanças que reduziram significativamente as possibilidades de reprodução econômica de dezenas de famílias que dependiam desses ambientes para sobreviver.

Além disso, chama atenção que, passados quase vinte anos desde o anúncio do projeto original, a promessa de um grande distrito industrial diversificado nunca tenha se concretizado. O complexo consolidou-se principalmente como uma plataforma logística voltada ao apoio offshore, à exportação de minério de ferro e às atividades ligadas ao setor de petróleo e gás, mantendo características típicas de um enclave econômico pouco integrado ao território que o abriga.

Por isso, mais do que celebrar sua nova condição de cidadão sanjoanense, seria desejável que Eduardo Paes realizasse uma visita ao V Distrito de São João da Barra. Mas não apenas ao interior do complexo cercado e protegido que lhe foi apresentado. Seria importante percorrer o lado de fora das cercas, conversar com agricultores desapropriados, pescadores artesanais e moradores das comunidades afetadas pela implantação do empreendimento. Somente assim poderá conhecer uma realidade que raramente aparece nos centros de visitantes e nas apresentações institucionais: a de um empreendimento multinacional que extrai enormes riquezas do território, enquanto distribui de forma extremamente desigual os custos sociais e ambientais de sua presença.

*Marcos Pędłowski é Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental.

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