Porto do Açu: Festival das Águas ou Festival do Greenwashing?

Por Marcos Pędłowski
Patrocinado pelo Porto do Açu, Ferroport, Vast e Sinopec e financiado também com recursos públicos da Lei Rouanet, o FASA expõe a contradição de celebrar os saberes das águas enquanto silencia os impactos sofridos por agricultores familiares e pescadores artesanais de São João da Barra
Há algo profundamente contraditório na realização do FASA – Festival de Artes e Saberes das Águas Um evento que se apresenta como espaço de valorização da cultura das águas, dos saberes tradicionais e da preservação ambiental escolheu como principais patrocinadores justamente algumas das empresas que mais transformaram – e em muitos aspectos degradaram – as relações históricas entre a população local e seu território.
Entre os patrocinadores aparecem o Porto do Açu, a Ferroport e a Vast , corporações cuja presença está diretamente associada à implantação de um dos maiores complexos portuário-industriais do país. Trata-se do mesmo empreendimento que provocou a desapropriação de milhares de hectares de terras agrícolas, atingiu centenas de famílias de agricultores familiares e alterou profundamente as condições de vida e trabalho de pescadores artesanais que dependiam das lagoas, canais e do litoral de São João da Barra.
É impossível celebrar os “saberes das águas” ignorando aqueles que construíram esses saberes ao longo de gerações e que tiveram seu modo de vida profundamente afetado pela expansão industrial. A cultura das águas não existe dissociada dos pescadores, marisqueiras, agricultores e comunidades tradicionais que fazem desse território um espaço vivo. Transformá-la em espetáculo patrocinado por grandes corporações significa esvaziar seu conteúdo social e político.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que o festival também conta com recursos da Lei Rouanet e com o apoio institucional do Ministério da Cultura e do Governo Federal. Em vez de fortalecer iniciativas verdadeiramente enraizadas nas comunidades atingidas, recursos públicos acabam conferindo legitimidade a uma operação de marketing institucional que beneficia empresas interessadas em melhorar sua imagem perante investidores nacionais e estrangeiros.
Não se trata de negar a importância da arte, da música ou da valorização da cultura local. Pelo contrário. O problema é permitir que um discurso de sustentabilidade e valorização das águas seja utilizado como instrumento de “greenwashing” e de limpeza reputacional por grupos econômicos cuja trajetória em São João da Barra é marcada por conflitos territoriais, expropriações e pela precarização de modos de vida tradicionais.
Se o objetivo é celebrar as águas, talvez o primeiro passo fosse ouvir aqueles que perderam o acesso às suas lagoas, aos seus campos, aos seus caminhos e às suas áreas de pesca. Afinal, a memória das águas também carrega as marcas das cercas, das desapropriações e dos processos de desterritorialização que ainda hoje moldam a realidade do município.
Um festival dedicado às águas deveria ser um espaço de memória, justiça e reparação. Quando se transforma em vitrine para grandes corporações, corre o risco de substituir a voz das comunidades pelo marketing empresarial, convertendo cultura em ativo reputacional e patrimônio coletivo em estratégia de relações públicas.
*Marcos Pędłowski é Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental.


