A carta Felipe Curi que Flávio Bolsonaro guarda como coringa depois que Castro renunciar

Por Thiago Prado na newsletter Jogo Político
Um dia depois de divulgar a chapa da direita para as eleições deste ano no Rio, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) chamou o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, para uma conversa a sós na quarta-feira à noite em Brasília. Depois de ser estimulado — e até ter se animado — a concorrer ao Palácio Guanabara pelo próprio Flávio, Curi incomodou-se com o anúncio que o ignorou. Na terça-feira, o secretário de Cidades, Douglas Ruas (PL), foi lançado para o governo do estado, e o governador Cláudio Castro (PL) e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil), para o Senado.
Curi já decidiu que entrará na política esse ano e vai se desincompatibilizar do cargo nas próximas semanas. Desde a operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha que matou 122 pessoas em outubro do ano passado, ele passou a pontuar em pesquisas de intenção de voto para governador e senador.
Na mesma terça-feira em que caciques de PL, PP e União Brasil posavam para fotos selando a aliança no Rio, o secretário da Polícia Civil excluído da imagem estava à frente de mais uma operação do governo Cláudio Castro: naquele dia, a Polícia Civil fluminense prendeu 616 acusados por roubo, latrocínio e receptação no estado.
Para celebrar essas detenções e outras, o Instagram de Curi com 470 mil seguidores já funciona em modo campanha. Diariamente, as postagens celebram resultados de operações e destacam frases de efeito do secretário. A estratégia costuma repercutir. Com edição caprichada e uma trilha sonora sombria, o vídeo com uma fala sua na coletiva de imprensa da operação desta semana recebeu quase 20 mil curtidas:
— O ladrão é a pior raça que existe. É a pior raça da face da Terra — pregou com microfone em mãos num corte com cerca de 200 mil visualizações nas redes.
Na quarta-feira, Flávio reafirmou o convite do PL para Curi ser candidato a deputado federal. O PP já havia feito a mesma proposta ao secretário. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro lembrou, contudo, que o xadrez eleitoral no Rio ainda pode mudar diante do futuro imprevisível pela frente para Cláudio Castro e Márcio Canella.
Está marcado para o dia 10 o retorno do julgamento envolvendo o governador do Rio no caso Ceperj, que pode cassá-lo e torná-lo inelegível. Além disso, as investigações da Polícia Federal a partir do celular apreendido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), podem atingir Canella e toda a cúpula do União Brasil no estado. Ontem, as anotações de Flávio a respeito de palanques estaduais divulgadas pela imprensa evidenciam a dúvida: há um ponto de interrogação escrito ao lado do nome do prefeito de Belford Roxo.
Flávio ainda tentou seduzir Curi com outros argumentos: coordenar o programa de governo de Douglas Ruas na segurança pública, indicar o sucessor na Polícia Civil do Rio e ter papel relevante a nível nacional caso a direita vença o presidente Lula na disputa pelo Planalto.
Nas últimas semanas, a cobiça em torno do nome de Curi cresceu. O Novo o convidou para lançá-lo como o candidato à sucessão de Castro em uma dobradinha com o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) Rodrigo Pimentel, hoje consultor na área de segurança pública. Pimentel tem sinalizado ao partido que poderia concorrer a vice ou se lançar ao Senado pela sigla que hoje tem o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, como pré-candidato a presidente.
Desde o ano passado, Pimentel deixa o próprio nome correr como hipótese eleitoral, assim como Curi. Embora diga a dirigentes do Novo que a sua mulher e sócia, Thais Menezes, seja contra qualquer candidatura, o ex-capitão do Bope autorizou a sigla a gastar recursos do fundo partidário com a empresa de pesquisas Prefab Future, do jornalista Mario Marques, para testar a aceitação ao seu nome.
Por ora excluído da chapa de Douglas Ruas e do prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), o Republicanos também sondou Curi nas últimas semanas. A legenda ligada à Igreja Universal do Reino de Deus vinha tentando atrair o psiquiatra e influenciador Italo Marsili para ser candidato a governador, mas está desistindo do projeto porque as conversas não avançam. O Republicanos vem buscando nomes fora dos quadros evangélicos para ter bom desempenho nas urnas — essa semana, por exemplo, filiou a modelo e fisiculturista Gracyanne Barbosa para concorrer a deputada federal. Para Curi, contudo, entrar no partido significaria ter que caminhar junto do ex-governador Anthony Garotinho e do deputado federal Marcelo Crivella, que deverão tentar uma vaga na Câmara.
Eduardo Paes vinha trabalhando para que Curi, e não Douglas Ruas, fosse o candidato da direita ao governo do estado. Acenou ao secretário das Cidades que ele poderia ser o presidente da Alerj a partir de 2027 e cedeu a São Gonçalo — governada pelo Capitão Nelson, pai de Ruas — R$ 200 milhões de recursos da prefeitura do Rio em royalties do petróleo. O prefeito estava tão certo que seria bem-sucedido que já tinha escolhido um mote para atacar Curi: compará-lo ao ex-governador Wilson Witzel. Seja pela falta de histórico na política, seja pela semelhança física.
Fonte: O Globo


