27/02/2026
Política

A carta Felipe Curi que Flávio Bolsonaro guarda como coringa depois que Castro renunciar

Secretário de Polícia Civil, Felipe Curi
Secretário de Polícia Civil, Felipe Curi

Por Thiago Prado na newsletter Jogo Político

Um dia depois de divulgar a chapa da direita para as eleições deste ano no Rio, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) chamou o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, para uma conversa a sós na quarta-feira à noite em Brasília. Depois de ser estimulado — e até ter se animado — a concorrer ao Palácio Guanabara pelo próprio Flávio, Curi incomodou-se com o anúncio que o ignorou. Na terça-feira, o secretário de Cidades, Douglas Ruas (PL), foi lançado para o governo do estado, e o governador Cláudio Castro (PL) e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil), para o Senado.

Curi já decidiu que entrará na política esse ano e vai se desincompatibilizar do cargo nas próximas semanas. Desde a operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha que matou 122 pessoas em outubro do ano passado, ele passou a pontuar em pesquisas de intenção de voto para governador e senador.

Na mesma terça-feira em que caciques de PL, PP e União Brasil posavam para fotos selando a aliança no Rio, o secretário da Polícia Civil excluído da imagem estava à frente de mais uma operação do governo Cláudio Castro: naquele dia, a Polícia Civil fluminense prendeu 616 acusados por roubo, latrocínio e receptação no estado.

Para celebrar essas detenções e outras, o Instagram de Curi com 470 mil seguidores já funciona em modo campanha. Diariamente, as postagens celebram resultados de operações e destacam frases de efeito do secretário. A estratégia costuma repercutir. Com edição caprichada e uma trilha sonora sombria, o vídeo com uma fala sua na coletiva de imprensa da operação desta semana recebeu quase 20 mil curtidas:

— O ladrão é a pior raça que existe. É a pior raça da face da Terra — pregou com microfone em mãos num corte com cerca de 200 mil visualizações nas redes.

Na quarta-feira, Flávio reafirmou o convite do PL para Curi ser candidato a deputado federal. O PP já havia feito a mesma proposta ao secretário. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro lembrou, contudo, que o xadrez eleitoral no Rio ainda pode mudar diante do futuro imprevisível pela frente para Cláudio Castro e Márcio Canella.

Está marcado para o dia 10 o retorno do julgamento envolvendo o governador do Rio no caso Ceperj, que pode cassá-lo e torná-lo inelegível. Além disso, as investigações da Polícia Federal a partir do celular apreendido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), podem atingir Canella e toda a cúpula do União Brasil no estado. Ontem, as anotações de Flávio a respeito de palanques estaduais divulgadas pela imprensa evidenciam a dúvida: há um ponto de interrogação escrito ao lado do nome do prefeito de Belford Roxo.

Flávio ainda tentou seduzir Curi com outros argumentos: coordenar o programa de governo de Douglas Ruas na segurança pública, indicar o sucessor na Polícia Civil do Rio e ter papel relevante a nível nacional caso a direita vença o presidente Lula na disputa pelo Planalto.

Nas últimas semanas, a cobiça em torno do nome de Curi cresceu. O Novo o convidou para lançá-lo como o candidato à sucessão de Castro em uma dobradinha com o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) Rodrigo Pimentel, hoje consultor na área de segurança pública. Pimentel tem sinalizado ao partido que poderia concorrer a vice ou se lançar ao Senado pela sigla que hoje tem o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, como pré-candidato a presidente.

Desde o ano passado, Pimentel deixa o próprio nome correr como hipótese eleitoral, assim como Curi. Embora diga a dirigentes do Novo que a sua mulher e sócia, Thais Menezes, seja contra qualquer candidatura, o ex-capitão do Bope autorizou a sigla a gastar recursos do fundo partidário com a empresa de pesquisas Prefab Future, do jornalista Mario Marques, para testar a aceitação ao seu nome.

Por ora excluído da chapa de Douglas Ruas e do prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), o Republicanos também sondou Curi nas últimas semanas. A legenda ligada à Igreja Universal do Reino de Deus vinha tentando atrair o psiquiatra e influenciador Italo Marsili para ser candidato a governador, mas está desistindo do projeto porque as conversas não avançam. O Republicanos vem buscando nomes fora dos quadros evangélicos para ter bom desempenho nas urnas — essa semana, por exemplo, filiou a modelo e fisiculturista Gracyanne Barbosa para concorrer a deputada federal. Para Curi, contudo, entrar no partido significaria ter que caminhar junto do ex-governador Anthony Garotinho e do deputado federal Marcelo Crivella, que deverão tentar uma vaga na Câmara.

Eduardo Paes vinha trabalhando para que Curi, e não Douglas Ruas, fosse o candidato da direita ao governo do estado. Acenou ao secretário das Cidades que ele poderia ser o presidente da Alerj a partir de 2027 e cedeu a São Gonçalo — governada pelo Capitão Nelson, pai de Ruas — R$ 200 milhões de recursos da prefeitura do Rio em royalties do petróleo. O prefeito estava tão certo que seria bem-sucedido que já tinha escolhido um mote para atacar Curi: compará-lo ao ex-governador Wilson Witzel. Seja pela falta de histórico na política, seja pela semelhança física.

Fonte: O Globo

Blog do Ralfe Reis - Conteúdo exclusivo e credibilidade
Anuncie AQUI - Tribuna NF - Seu jornal online

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *