Abstenção alta e ‘recall’ são desafios aos cotados para a eleição suplementar no Rio, indicam disputas anteriores

Com a possibilidade de uma eleição-tampão direta — também chamada de “suplementar” — para escolher um novo governador do Rio até o fim de 2026, fatores como a alta abstenção e o peso do “recall” nesse tipo de disputa desafiam Eduardo Paes (PSD), ex-prefeito da capital, e o deputado estadual Douglas Ruas (PL), até agora os mais cotados para concorrer. Em pleitos similares que ocorreram na última década pelo país, a taxa dos que não foram votar excedeu o padrão das eleições “convencionais”, realizadas em outubro. Além disso, candidatos que já haviam comandado a máquina estadual ou que estavam à frente dela durante a corrida fora de época levaram vantagem.
Esse tipo de eleição ocorre quando governador e vice são cassados pela Justiça Eleitoral. O último caso do tipo ocorreu em 2018, no Tocantins, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou a chapa de Marcelo Miranda (MDB), então titular do Executivo estadual, por captação ilícita de recursos. Na ocasião, os eleitores tiveram que ir às urnas em junho, para um pleito suplementar, e depois votaram novamente em outubro, na disputa convencional.

A abstenção chegou a 30% no primeiro turno, e a 35% no segundo, vencido por Mauro Carlesse — que era o presidente da Assembleia Legislativa e havia assumido o governo interinamente já na cassação de Miranda. Vale lembrar que o Rio, por sua vez, já tem histórico de taxas de abstenção acima da média nacional: em 2022, mais de 22% dos eleitores deixaram de votar no estado, o terceiro maior índice do país.
— Na suplementar, é natural abstenção ainda mais alta, a atenção do eleitor está mais dividida com outros assuntos. Por isso, candidatos que consigam mobilizar uma base de apoiadores levam vantagem. E ter a máquina em mãos pode ajudar nisso, através de alianças com prefeitos e vereadores, que têm um papel importante para mobilizar esse eleitor na ponta — avalia o cientista político Antonio Lavareda, diretor do Ipespe.
O Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar na próxima quarta-feira se a eleição-tampão do Rio, para substituir o ex-governador Cláudio Castro (PL), será direta ou indireta. Este último formato era o previsto originalmente pelo TSE após o julgamento do caso Ceperj, há duas semanas, que condenou Castro por abuso de poder — ele havia renunciado na véspera ao governo estadual. No entanto, quatro ministros do STF já se manifestaram a favor de uma eleição direta, e Paes e Ruas também vêm defendendo publicamente esse formato.
Desembargador à frente
A posição de Carlesse em 2018, no Tocantins, é justamente a almejada por Ruas, que busca se eleger presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e assumir interinamente o governo estadual. O Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), porém, barrou o movimento na semana passada. Com isso, o desembargador e presidente do TJ, Ricardo Couto, segue como governador em exercício até segunda ordem.
Já no outro caso de eleição suplementar a governador, em 2017, no Amazonas, o vitorioso foi o ex-ocupante do posto Amazonino Mendes, que estava há quase uma década “aposentado” das urnas. À época, a última disputa de Amazonino havia sido a prefeito de Manaus, em 2008. Escorado no “recall” de três mandatos como governador, ele derrotou o então senador Eduardo Braga (MDB) no pleito antecipado, que registrou quase 25% de abstenção.
No ano seguinte, por outro lado, Amazonino viu sua votação diminuir ao tentar a reeleição, e acabou derrotado por Wilson Lima, à época no PSC, que obteve o mandato de quatro anos. A vitória de Lima, até então um outsider que era apresentador de TV, ocorreu a reboque da onda Bolsonaro em 2018 e de rejeição à política tradicional.
— Em geral, as eleições para governador acabam ficando espremidas pela disputa presidencial, que chama mais atenção. Numa eleição suplementar, há a possibilidade de jogar mais luz sobre temas do estado — aponta a cientista política Mayra Goulart, professora da UFRJ.
Assim como Lavareda, Goulart crê que a máquina estadual pode ser um “instrumento de barganha” na tentativa de atrair o apoio de prefeitos, mas também vê importância no índice de conhecimento prévio dos candidatos, já que o período de campanha é mais curto. Nesse aspecto, Paes larga em vantagem contra Ruas, por já ter quatro mandatos como prefeito da capital fluminense e ter disputado a eleição ao governo em 2018, enquanto o rival está no primeiro mandato de deputado estadual.
— Mas Ruas pode explorar o que chamamos de “efeito coattail” (“carona”, em tradução livre). Ele tentará surfar a força do bolsonarismo no Rio e o fato de seu partido, o PL, comandar um quarto das prefeituras do estado — opina Goulart.
Outros ventilados
Além de Paes e Ruas, outros nomes ventilados para a eleição suplementar se escoram no fato de serem conhecidos. Um dos que se movimenta é o ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), embora seu partido, por ora, só queira lançá-lo a deputado federal.
O ex-governador Wilson Witzel (PMB) é outro antigo ocupante do Palácio Guanabara que almeja concorrer. Também estão cotados influenciadores digitais, como o humorista André Marinho, recém-filiado ao Novo, o médico Ítalo Marsili e o bombeiro Rafael Luz (Missão).
Em outro caso recente de eleição estadual fora de época, em 2020, Mato Grosso elegeu o senador Carlos Fávaro (PSD) à vaga no Congresso, no lugar da ex-senadora cassada Selma Arruda. Fávaro tinha sido vice-governador até 2018 e, naquela eleição suplementar, concorreu como “senador interino”.
Na ocasião, o STF liberou Fávaro a ficar na Casa até o pleito suplementar por ter sido o terceiro mais votado em 2018, quando houve duas vagas em disputa. Já na cadeira, ele se reelegeu em 2020 ao mandato válido até o fim de 2026, quando concorrerá de novo a senador — para tal, deixou o comando do Ministério da Agricultura no governo Lula.
Fonte: O Globo


