A tragédia de avião que matou os integrantes do Mamonas Assassinas: após 30 anos, corpos serão exumados

Por mais que o tempo tenha se passado, a gente sempre se lembra de como recebeu a notícia sobre alguma morte trágica que gerou comoção social. Onde você estava quando soube dos acidentes que mataram Ulysses Guimarães e Ayrton Senna, nos anos 1990? Como você ficou sabendo das mortes súbitas de Cassia Eller e Marília Mendonça ou do assassinato de Marielle Franco? O acidente que levou a vida dos integrantes dos Mamonas Assassinas certamente se enquadra nessa categoria. Nesta segunda-feira, quase 30 anos depois, os corpos dos cinco músicos serão exumados. As famílias entraram em acordo para cremar os corpos e transformá-los em adubo para plantar cinco árvores no BioParque Cemitério de Guarulhos, a cidade onde moravam.
Naquele sábado, dia 2 de março de 1996, os músicos Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli voltavam de um show em Brasília a bordo do jatinho Learjet modelo 25D, prefixo PT-LSD, fretado pela própria banda. Eram 23h15 quando a aeronave se chocou contra a Serra da Cantareira, ao Norte de São Paulo, depois de uma tentativa de arremetida. Além dos cinco integrantes dos Mamonas Assassinas, o acidente matou o piloto Jorge Luiz Germano Martins, o co-piloto Alberto Takeda, o ajudante de palco Isaac Souto e o segurança Sérgio Porto.
Numa época em que a informação não circulava com a velocidade de hoje, a maior parte do Brasil só recebeu a notícia sobre o desastre ao acordar, na manhã de domingo, quando imagens dos socorristas em meio aos destroços eram transmitidas pelas emissoras de TV. Ao longo do dia, a imprensa do país todo acompanhou o trabalho triste de remoção dos corpos e do velório repleto de amigos, parentes e fãs emocionados. Vídeos em homenagem ao grupo foram exibidos em programas como “Domingão do Faustão”, na Globo, e do apresentador Silvio Santos, no SBT.
Segundo uma reportagem do GLOBO, que publicou um caderno especial sobre a tragédia, o Learjet fretado da empresa Madri Táxi Aéreo começou seu pouso no Aeroporto de Cumbica, naquele sábado à noite, com velocidade acima do normal e “rumo ligeiramente deslocado à esquerda”. Pelas normas para aquela aeronave, a velocidade deveria estar em 210 km/h, mas o Learjet voava a 270 km/h. Com 300 metros de altitude, o piloto Jorge Luiz se viu obrigado a arremeter (manobra comum que consiste em desacelerar e voltar a subir, recolhendo os trens de pouso).
Até então, tudo parecia normal. Entretanto, a tripulação cometeu um erro grave ao retomar o trabalho de pouso. Em vez de virar à direita, como seria o correto numa aterrissagem por instrumentos naquele ponto, os pilotos realizaram uma curva à esquerda, chocando-se com uma montanha na Serra da Cantareira. Uma investigação posterior realizada por técnicos da Aeronáutica concluiu que a tragédia foi causada por imperícia, fadiga da equipe, que naquele momento vinha de uma longa escala de trabalho, e falhas na comunicação entre os pilotos e a torre de controle, no Aeroporto de Guarulhos.
Um piloto da Varig, que viu o fogo na montanha ao longe, informou à torre de controle sobre o acidente. Uma equipe do Corpo de Bombeiros chegou à área do acidente às 23h38 daquele sábado, mas, além da escuridão da noite, havia uma neblina cobrindo a montanha. Os destroços do avião só foram localizados às 5h de domingo. As imagens do acidente, reveladas pelo amanhecer, deixaram consternados os socorristas e os parentes que, durante a madrugada, haviam chegado ao local da tragédia com alguma esperança de ver os ocupantes da aeronave com vida.
“Era quase impossível reconhecer. Não sobrou nada, nem dos Mamonas, nem do avião”, desabafou, com a voz trêmula de consternação, Waldomiro Ramos, tio do vocalista Dinho, que por volta das 4h da madrugada estava embrenhado no mato, ao lado das equipes de resgate, para ajudar a procurar seu sobrinho. “Passei a tarde de sábado tomando café na casa do Dinho, conversando com ele, e agora estou aqui tentando adivinhar se o corpo sem cabeça que achei era dele”.
Os Mamonas Assassinas estavam no auge. A irreverência de seu rock cômico, com letras e visual escrachados, conquistara o Brasil em pouco tempo. O primeiro e único disco, com o nome da banda, havia sido lançado em junho de 1995 e, nos oito meses seguintes, teve cerca de 1,8 milhão de cópias vendidas. No total até hoje, foram cerca de 3 milhões de cópias, alcançando um dos maiores êxitos comerciais entre artistas nacionais em todos os tempos. O grupo vinha fazendo shows no Brasil todo e viajaria para se apresentar em Portugal ainda na primeira semana daquele mês.
O show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, seria o último da turnê no Brasil, antes de a banda se concentrar em seu segundo disco. Os Mamonas tocaram para um público de cerca de 4 mil pessoas, na sua maioria crianças e adolescentes. Vestindo uma fantasia de coelhinho de pelúcia, Dinho cantava e dançava com a energia de sempre. Ao fim da performance, o cantor desceu ao gramado da arena e agradeceu. Em seguida, foram todos direto para o aeroporto e trocaram de roupa no carro, a caminho do aeroporto, como fizeram muitas vezes antes, nos meses anteriores.
O Ginásio Municipal Paschoal Thomeu, em Guarulhos, na Grande São Paulo, estava lotado com 30 mil pessoas quando os corpos dos cinco roqueiros e dos dois assistentes chegaram, às 0h15 de segunda-feira. Os caixões, cobertos com bandeiras do Brasil, ficaram lado a lado na quadra esportiva, em meio a cerca de 300 familiares e amigos próximos. No caixão de Dinho, foi colocada ainda uma camisa do Corinthians, seu time do coração. Ao redor da cena, os fãs cantavam sucessos até hoje inesquecíveis como “Sabão Crá-Crá” e “Pelados em Santos” a plenos pulmões.
A comoção no ginásio continuou crescendo ao longo da segunda-feira, concentrando um sentimento que também se espalhava pelo país. De acordo com uma reportagem do GLOBO na época, assinada pelo jornalista Elio Gaspari, “amigos de Guarulhos e desta vida” escreveram mensagens em camisetas de pano estendidas sobre os caixões. “Você é dez”, “O céu estava precisando de alegria”, “Ainda te vejo”. Os recados eram de jovens moradores de “conjuntos habitacionais projetados para viver sem alma”, onde também haviam crescido Dinho e seus parceiros.
Mais de cem mil pessoas estavam no cortejo que levou os corpos até o cemitério Parque das Primaveras I, na parte da tarde. Atendendo a pedidos das famílias, a Polícia Militar impediu a multidão de entrar. Houve tumulto, e foram registrados 31 desmaios. Do lado de fora, muitos fãs agitavam galhos e folhas de mamona, além de cartazes e bandeiras improvisados. Turmas inteiras de ensino fundamental das redes pública e privada mataram aulas para estar perto do cemitério na despedida da banda. Houve muito choro e desespero
Ambulantes vendiam tiaras, bandeirinhas brancas com a inscrição “Adeus, Mamonas” e reproduções de fotos da banda, entre outras bugigangas.
No cemitério, cerca de 500 pessoas, acompanharam o enterro. Os integrantes dos Mamonas foram colocados num mesmo túmulo. A cerimônia teve pouco mais de 40 minutos e incluiu um “Parabéns a você” para Dinho, que, no dia 4 de março de 1996, completaria 25 anos. Sua namorada, Valeria Zopello, chorava copiosamente e chegou a passar mal. Depois do enterro, ela reuniu forças para deixar uma declaração sobre os músicos. “Apesar de todos terem mais de 22 anos, os Mamonas eram crianças. Os meninos gostariam que daqui pra frente a gente fosse alegre como eles foram”, disse ela.
Fonte: Blog do Acervo, do Jornal O Globo


