04/02/2026
Política

Software israelense, experiência da Lava-Jato e bloqueio de Wi-Fi: como a PF faz a perícia nos celulares dos alvos do caso Master

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Por Eduardo Gonçalves, O Globo

Em depoimento à Polícia Federal (PF), o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, admitiu que tinha “amigos de todos os Poderes” da República e se recusou a fornecer a senha do seu celular, alegando o receio de vazamento das suas “relações pessoais e privadas”.

Mas o conteúdo do equipamento dele, de seus parentes e ex-sócios, e do investidor Nelson Tanure — apreendidos durante as duas fases da Operação Compliance Zero —, já foi extraído em uma sala de acesso restrito do Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, e depois encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR).

Apesar de não ter contado com a colaboração do banqueiro, a PF dispõe de dois programas — um israelense e um americano — que conseguem quebrar a senha dos dispositivos e acessar boa parte dos arquivos.

O teor das mensagens e áudios trocados por Vorcaro será determinante para manutenção ou não do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Relator do inquérito, o ministro Dias Toffoli já reconheceu a possibilidade de enviá-lo à primeira instância ao serem “encerradas as investigações”.

Junto com quatro peritos escolhidos por Toffoli, a equipe do procurador-geral da República, Paulo Gonet, já está se debruçando sobre o material.

A extração dos celulares foi coordenada pelo perito Luiz Felipe Nassif, chefe do Serviço de Perícias em Informática da PF. Formado no Instituto Militar de Engenharia do Exército (IME), ele já atuou em grandes operações, como a Lava-Jato e a Lesa-Pátria, e é especialista em processar grande volume de dados e inteligência artificial.

Nassif foi o idealizador da ferramenta chamada Indexador e Processador de Evidências Digitais (Idep), software usado há mais de dez anos pela PF para identificar dados de interesse em meio a milhões de gigabytes.

Num primeiro momento, os celulares foram acondicionados em um recipiente metálico que bloqueia ondas eletromagnéticas e o sinal de Wi-Fi. Desse modo, evita-se que o dispositivo se conecte a alguma rede e possa ter arquivos apagados remotamente. O conteúdo digital é tratado como espécie de “cena do crime” que precisa ser preservada — a chamada cadeia de custódia.

Recuperação de arquivos

Depois, os aparelhos costumam ser conectados por cabos a equipamentos dos programas Cellebrite (israelense) e Greykey (americano), que têm capacidade para romper senhas e barreiras para acessar os sistemas iOS (iPhone) e Android (Google).

No caso do celular de Vorcaro — um iPhone 17 Pro, a última geração da marca — a extração pode levar mais tempo por ter mais obstáculos digitais. Esses programas precisam passar por atualizações constantes à medida que modelos são lançados.

A praxe é que o processo de extração e análise leve de uma semana a um mês, mas isso depende do tamanho do material a ser avaliado.

Em seu WhatsApp, Vorcaro mantinha grupos que podem ser de interesse da PF, como “MasterFictor”, criado em 12 de novembro de 2025 — cinco dias antes de ele ser preso na primeira fase da Operação Compliance Zero.

Pouco antes dela ser deflagrada, o grupo Fictor anunciou que compraria as ações de Vorcaro no Master por R$ 3 bilhões, com o apoio de investidores de Dubai, cujos nomes nunca foram revelados. Nesta semana, as empresas Fictor Holding e Fictor Invest entraram com um pedido de recuperação judicial para conseguir honrar dívidas e compromissos que somam R$ 4,2 bilhões.

No WhatsApp de Vorcaro aparecem cinco grupos que mencionam a gestora Reag ou seu fundador João Carlos Mansur, também alvo da operação. Assim como o Master, a Reag teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Parte desse material, obtido pelo GLOBO, chegou a ser repassado à CPI do INSS, mas depois teve o acesso bloqueado por decisão de Toffoli.

Outro perito escolhido por Toffoli para atuar no caso é Enelson da Cruz Filho, especialista em análise financeira da Polícia Federal. Formado em Ciências Contábeis, já atuou no caso dos descontos indevidos do INSS e deve ajudar na verificação de planilhas e tabelas que devem ser encontradas no material apreendido.

A perícia da PF tem expertise em técnicas para recuperar arquivos, áudios e mensagens que foram apagados pelos alvos. Uma delas é o chamado datacarving, que varre o armazenamento bruto dos dispositivos, tentando recompor os dados excluídos ou corrompidos por meio de fragmentos.

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