Temer indica Ivan Monteiro para Petrobras e garante autonomia

Alarmado com a reação negativa do mercado financeiro ao pedido de demissão de Pedro Parente, e a perda de R$ 40 bilhões em valor de mercado no pregão de ontem, o presidente Michel Temer não só confirmou Ivan Monteiro como o novo presidente da Petrobras, como garantiu que não haverá interferência na gestão de preços da estatal.

Monteiro, que é diretor financeiro da Petrobras desde fevereiro de 2015, precisará ter o nome aprovado pelo Conselho de Administração. “Escolhido como interino, Ivan Monteiro será recomendado ao conselho de administração para ser efetivado na presidência da Petrobras”, afirmou Temer. Ele ressaltou que seu governo mantém o “compromisso com a recuperação e a saúde financeira” da empresa e que, por isso, não haverá qualquer interferência na política de preços da companhia, como alguns políticos pressionam.

“Aproveito para reafirmar que meu governo mantém compromisso da recuperação e saúde financeira da Petrobras. Portanto, continuaremos com a política econômica que, nesses dois anos, retirou a empresa do prejuízo e a trouxe novamente para o rol das mais respeitadas do Brasil e do exterior. Declaro também que não haverá interferência na política de preços da companhia. E Ivan Monteiro é a garantia de que esse rumo permanece inalterado”, declarou Temer.

Parente foi substituído pelo diretor financeiro e de relações com o mercado, Ivan Monteiro

O presidente desejou sucesso a Monteiro e aproveitou o pronunciamento para agradecer a Pedro Parente pela “revitalização” da Petrobras. Mais cedo, o Conselho de Administração da estatal já havia aprovado o nome de Monteiro como presidente interino da empresa. Após a reunião, o executivo viajou a Brasília, onde se reuniu com Temer no Palácio do Planalto, quando aceitou formalmente o convite para assumir o comando da estatal.

Temer quis decidir o novo presidente definitivo no mesmo dia da saída de Parente para acalmar o mercado. O objetivo foi encerrar especulações sobre possibilidade de um nome político assumir o controle da empresa, evitando que as dúvidas se prolongassem pelo final de semana. A saída de Parente provocou ontem queda de 14% nas ações da Petrobras.

O governo quer mostrar que a independência da empresa será mantida, apesar da saída de Parente do cargo. Temer está sendo muito pressionado a mudar a atual política de preços, mas sabe dos reflexos que isso terá nas ações da empresa e tenta evitar que, depois da recuperação alcançada pela estatal, ela volte a sofrer novo baque.

Carta 

Parente entregou sua carta de demissão ao presidente Michel Temer durante reunião no final da manhã de ontem, no Palácio do Planalto. Na carta, o agora ex-presidente afirmou que a greve dos caminhoneiros desencadeou “intenso” e “emocional” debate e colocou a política de preços da estatal sob “intenso questionamento”. “Diante desse quadro, minha permanência na Petrobras deixou de ser positiva”, declarou.

Com o fim da greve dos caminhoneiros, após 12 dias de paralisação, e a decisão do governo de congelar o preço do diesel, Parente percebeu que seria alvo de mais pressões pela frente: para reduzir os preços da gasolina e do gás e ceder nas negociações com a União em torno do leilão de barris de petróleo excedentes do pré-sal.

Segundo fontes próximas à empresa, o desgaste de Parente já era nítido. Entre os membros do conselho de administração, a dúvida era quanto tempo ele aguentaria a pressão para mudar a política de preços dos combustíveis, com reajustes diários. Em seu último contato com analistas financeiros, chegou a reclamar que a crise havia sido personalizada nele – sua queda era uma das reivindicações da greve dos petroleiros.

Parente deixou claro que preferia sair a abandonar a política de reajustes diários, pilar da recuperação financeira da empresa. Estratégia que o deixou como alvo de caminhoneiros, sindicalistas, políticos da oposição e até do governo. Além da política de preços, Parente bancou outras medidas impopulares: se posicionou contra a política de conteúdo local, desagradando à indústria nacional. Além disso, levou em frente um ambicioso plano de venda de ativos e fez duas rodadas de programas de demissões voluntárias.

__________

CARTA DE DESPEDIDA

“Quando Vossa Excelência me estendeu o honroso convite para ser presidente da Petrobras, conversamos longamente sobre a minha visão de como poderia trabalhar para recuperar a empresa, que passava por graves dificuldades, sem aportes de capital do Tesouro, que na ocasião se mencionava ser indispensável e da ordem de dezenas de bilhões de reais. Vossa Excelência concordou inteiramente com a minha visão e me concedeu a autonomia necessária para levar a cabo tão difícil missão. 

Durante o período em que fui presidente da empresa, contei com o pleno apoio de seu Conselho. A trajetória da Petrobras nesse período foi acompanhada de perto pela imprensa, pela opinião pública, e por seus investidores e acionistas. Os resultados obtidos revelam o acerto do conjunto das medidas que adotamos, que vão muito além da política de preços.

Faço um julgamento sereno de meu desempenho, e me sinto autorizado a dizer que o que prometi, foi entregue, graças ao trabalho abnegado de um time de executivos, gerentes e o apoio de uma grande parte da força de trabalho da empresa, sempre, repito, com o decidido apoio de seu Conselho.

A Petrobras é hoje uma empresa com reputação recuperada, indicadores de segurança em linha com as melhores empresas do setor, resultados financeiros muito positivos, como demonstrado pelo último resultado divulgado, dívida em franca trajetória de redução e um planejamento estratégico que tem se mostrado capaz de fazer a empresa investir de forma responsável e duradoura, gerando empregos e riqueza para o nosso país. E isso tudo sem qualquer aporte de capital do Tesouro Nacional, conforme nossa conversa inicial. Me parece, assim, que as bases de uma trajetória virtuosa para a Petrobras estão lançadas. 

A greve dos caminhoneiros e suas graves consequências para a vida do País desencadearam um intenso e por vezes emocional debate sobre as origens dessa crise e colocaram a política de preços da Petrobras sob intenso questionamento. Poucos conseguem enxergar que ela reflete choques que alcançaram a economia global, com seus efeitos no País. Movimentos na cotação do petróleo e do câmbio elevaram os preços dos derivados, magnificaram as distorções de tributação no setor e levaram o governo a buscar alternativas para a solução da greve, definindo-se pela concessão de subvenção ao consumidor de diesel. 

Tenho refletido muito sobre tudo o que aconteceu. Está claro, Sr. Presidente, que novas discussões serão necessárias. E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o governo tem pela frente. Sempre procurei demonstrar, em minha trajetória na vida pública que, acima de tudo, meu compromisso é com o bem público. Não tenho qualquer apego a cargos ou posições e não serei um empecilho para que essas alternativas sejam discutidas. 

Sendo assim, por meio desta carta, apresento meu pedido de demissão do cargo de Presidente da Petrobras, em caráter irrevogável e irretratável. Coloco-me à disposição para fazer a transição pelo período necessário para aquele que vier a me substituir.

Fonte: JB

De sua opinião