Gravação mostra braço-direito de Picciani negociando recolhimento de propina, diz MPF

Novas gravações mostram Jorge Luiz Ribeiro, braço-direito do presidente afastado da Alerj, Jorge Picciani, negociando o recolhimento de propina com um doleiro, segundo o Ministério Público Federal. As informações estão nas alegações finais do MPF no processo da operação Cadeia Velha, que revelou um esquema milionário de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio.

As provas, segundo o MPF, revelam o caminho do dinheiro sujo pago à complexa organização criminosa que atuou nas entranhas da administração pública do Rio desde a década de 90. As investigações mostram que os pagamentos eram intermediados pela Hoya Corretora, do doleiro e delator Alvaro José Novis.

Os pagamentos feitos tanto pelas empresas de ônibus como no esquema que beneficiou a empreiteira Odebrecht. Uma conversa, gravada com autorização da Justiça, entre Edimar Dantas, funcionário da Hoya, e Jorge Luiz Ribeiro, que segundo o MP é braço-direito de Picciani, mostra os dois negociando propina.

Edimar – Hoya Corretora.

Jorge Luiz – Edimar, é o Jorge, tudo bom?

Edimar – Tudo bom, Jorge.

Jorge Luiz – Tá ficando ruim pra você hein, cara?

Edimar – É…

Jorge Luiz – [Inaudível] não quer subir.

Edimar – É…não tem problema.

Jorge Luiz – Não tem problema. Cara, não esquece de mim essa semana. Eu, inclusive, vou tomar um café quinta-feira com teu amigo aí, mas já vai preparando, senão você me deixa mal a semana toda, tá bom

Edimar – [inaudível] um amigo meu.

Jorge Luiz – Quinta-feira isso, teu amigo.

Edimar – Qual amigo?

Jorge Luiz – Qual amigo? Você liga pra ele aí é igual fantasma. Você liga, mas ninguém sabe. Ou ninguém vê ou não tem notícia. Não é isso? Não tem um amigo fantasma? P*, Tá bom?

Edimar – Eu falo com ele.

Jorge Luiz – Isso, fala com ele

Os réus comandaram o MDB na Assembleia Legislativa do Rio por quase 20 anos e cobraram uma fortuna em propina. Segundo o MPF, nos últimos anos, Jorge Picciani, recebeu R$ 11 milhões da Odebrecht, e quase R$ 70 milhões das empresas de ônibus.

MP pede condenação

No dia 2 de novembro, o MPF pediu a condenação de Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi. De acordo as investigações, os valores pagos a Paulo Melo ultrapassam os R$ 54 milhões. Já Edson Albertassi, segundo o MPF, recebeu mais de R$ 1,7 milhão.

Ao pedir a condenação dos réus, o Ministério Público destaca a importância de documentos e relatos apresentados pelos delatores, diz que “não foram constatadas versões contraditórias ou vacilantes e que os delatores deram depoimentos coerentes sem modificações nos aspectos essenciais.

O Ministério Público Federal juntou planilhas, extratos bancários e tabelas apresentadas pelos delatores que para comprovar as irregularidades.

Planilha de pagamentos

Na planilha controlada por Alvaro José Novis e juntada pelo MPF nas chamadas alegações finais do processo, consta o registro de pagamento de R$ 500 mil em favor de Jorge Luiz/Jorge Picciani, por ordem de José Carlos Lavouras, ex-diretor da Fetranspor.

Segundo os investigadores, a quebra do sigilo telefônico de Jorge Luiz demonstrou que ele, com frequência, mantinha contato com Edimar ou Márcio, em datas próximas a esses pagamentos de propina.

Ainda de acordo com o MPF, as mensagens cifradas, ditas de forma lacônica, davam o tom das conversas que, antes de tudo, indicavam ter como objetivo combinar horários e locais para a entrega da propina.

Depois dos procuradores e as defesas apresentarem as últimas alegações no processo, o caso será julgado no Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

O que dizem os citados

A defesa de Jorge Luiz Ribeiro afirma que os documentos acostados pelo MPF mostram que as relações estabelecidas entre o Jorge Luiz, que tem uma agência de viagens, e a corretora Hoya foram legais, e que isso “demonstra o desespero de um réu confesso que, em busca de benefícios, imputa fatos inverídicos a Jorge Luiz”.

A defesa de Edson Albertassi disse que as alegações finais do Ministério Público “desconsideram todas as provas colhidas, que interpretam os fatos e insistem cegamente na condenação de um inocente”.

A defesa de Paulo Melo reafirmou a inocência do deputado e informou que está preparando suas alegações finais. A defesa de Picciani diz que o pedido do MPF não condiz com as provas e que espera que o deputado seja absolvido.

Fonte: G1

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