‘Fico sem comer para dar aos meus filhos’, relata morador da Baixada após Bolsonaro dizer que não há fome no Brasil

Para conseguir manter os quatro filhos minimamente alimentados, o desempregado Maxuel Rismo, de 29 anos, precisa abrir mão de algumas refeições. Com a comida contada dentro da casa humilde no bairro Codex, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, o rapaz passa fome para garantir que as crianças não fiquem sem comer. A história da família retrata a situação de pobreza na qual vivem milhões de brasileiros. Ignorando a situação do país que comanda, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante um café da manhã com jornalistas estrangeiros no Palácio do Planalto, que “é mentira” que haja fome no Brasil.

– Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo – disse Bolsonaro.

O cardápio na casa de Maxuel inclui, na maioria das vezes, arroz e feijão. Quando sobra um pouco mais de dinheiro, o rapaz consegue incluir ovo no cardápio. Já quando a situação está mais apertada, a família come apenas farinha com feijão. Maxuel tem quatro filhos: Rebeca, de 1 ano, Samuel, de 3, Isac, de 6 e Isamel, de 8.

— Esta semana ganhamos um bolo, uma pessoa doou, e foi o café da manhã de meus filhos e da minha esposa. Mas normalmente dou a eles um pouco de arroz com feijão quando acordam. Tem vezes que eu e minha esposa ficamos sem comer para dar comida para meus filhos. Eu digo que é uma escolha que faço com o coração.

A declaração do presidente é rebatida por estatísticas recentes de instituições como a ONU, o IBGE e o Ipea, e foi criticada por especialistas em economia e evolução de índices sociais no país.

Relatório do Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe 2018, divulgado em novembro pela ONU, mostrou o crescimento da fome no Brasil. O estudo estimou que a desnutrição alcançou até 5,2 milhões de brasileiros entre 2015 e 2017, ante os 5,1 milhões calculados para os triênios 2014-2016 e 2013-2015 e os 5 milhões, de 2010-2012. No triênio 2000-2002, 18,8 milhões de brasileiros sofriam com a fome.

A baiana Ivania Sousa Santos, de 36 anos
A baiana Ivania Sousa Santos, de 36 anos Foto: Daniel Marenco

Desafio: sobreviver

Em Nova Iguaçu, Maxuel usa um fogão improvisado, feito com tijolos na calçada em frente à casa da família, para cozinhar as refeições dos filhos. Ontem, ao receber o EXTRA, o rapaz usava o forno para ferver a água que usaria para fazer um remédio caseiro contra a sarna para três filhos.

As crianças ficam sob os cuidados do pai, que relata dificuldades até de conseguir “bico” para capinar terrenos, pelo que ganha R$ 30 por dia. A renda da família vem do trabalho da mãe, Camila Neves, de 24 anos, que ganha R$ 1 mil por mês em um pequeno mercado de Nova Iguaçu. Eles recebem, também, R$ 200 de Bolsa Família.

— Nosso aluguel custa, por mês, R$ 350, fora os atrasados. Sobra muito pouco para vivermos. O presidente não tem ideia da nossa realidade. É fácil falar morando dentro de um palacete — critica Maxuel.

Segundo o IBGE, 54,8 milhões de brasileiros estavam abaixo da linha da pobreza em 2017. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que a proporção de miseráveis no país ( rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto do salário mínimo) subiu de 6,6% para 7,4% no mesmo ano.

Para o coordenador executivo da Ação da Cidadania, Kiko Afonso, a fala de Bolsonaro demonstra que ele não conhece o Brasil:

— O presidente mostra desconhecimento sobre o que é fome e insegurança alimentar, porque a pessoa não precisa estar esquelética para estar nessa condição.

Paloma de Jesus, 18 anos, mora no bairro de Fazenda Coutos, em Salvador
Paloma de Jesus, 18 anos, mora no bairro de Fazenda Coutos, em Salvador Foto: Regina Bochicchio

Miséria a 5km do Planalto

Aos 50 anos, Cícero Bitu, nascido na Paraíba, conta que já passou fome. Em busca de uma vida melhor, foi para Brasília nos anos 80. Na capital, formou família ao lado de Ivânia Santos. Com três filhos, o casal mora em uma espécie de acampamento a 5 km do Palácio do Planalto, local de trabalho de Bolsonaro. Apesar da melhoria de condições, em relação a sua terra natal, a fome ainda ronda o paraibano e seus familiares. A última vez que se viu sem ter nada para alimentar a família, conta, foi no ano passado.

— Eu não tinha o que nós (sic) comer. Meu sobrinho fez uma feirinha e me deu— diz Bitu.

A família vive com o dinheiro de reciclagem de materiais que recolhem na rua. A renda incerta mais o pagamento do Bolsa Família que recebem nem sempre são suficientes para garantir alimentos na mesa. A família precisa recorrer frequentemente a doações e restos encontrados no lixo. O casal é enfático ao dizer que, se não fosse a caridade de desconhecidos, não teriam o que comer.

— Se não fossem as doações, a gente ia morrer de fome — disse Ivânia.

O barraco onde moram fica em uma clareira no meio do mato, nas margens de uma avenida. Entre os poucos pertences, um fogão a lenha improvisado, feito de latas de leite condensado. Aquecem o feijão com muxiba (pelanca gordurosa da carne).

Na Bahia, Paloma de Jesus, de 18 anos, mãe solteira de dois filhos, diz nem lembrar mais do que em que cozinhou e comeu “uma boa refeição. Diariamente, ela sai do bairro popular Fazenda Coutos, em Salvador, na Bahia, para pedir dinheiro numa movimentada avenida. Quando consegue R$ 30, é boa quantia. Ontem, alguém lhe pagou um lanche e um dos filhos comeu mingau dado pela vizinha.

— Nem todo mundo tem trabalho, nem todo mundo tem dinheiro para comprar comida — diz, sobre a frase de Bolsonaro.

Fonte: Extra

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