Escutas telefônicas envolvem parlamentar do Rio com esquema de desvios no Into

O RJ2 teve acesso, com exclusividade, a ligações telefônicas que mostram como o esquema de propina do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) continuou mesmo depois das investigações feitas pela Operação Lava Jato.

As gravações, feitas no mês passado com autorização da Justiça, envolvem um novo personagem no caso: o deputado federal Francisco Floriano (DEM), integrante da bancada evangélica na Câmara Federal. Ele nega qualquer irregularidade.

Em uma das ligações, o ex-coordenador de Administração Geral do Into, Luiz Carlos Moreno, fala com João Batista Júnior, apontado como um dos operadores financeiros do esquema de pagamento de propina do instituto. Ambos foram presos pela Operação lava jato na semana passada.

MORENO – Olha só! É… Um k na mão do Careca. Até o final do ano.

JOÃO – Um k?

MORENO – É!

JOÃO – Que que tem?

MORENO – Agora, pra ele esquecer a gente até o final do ano!

JOÃO – É. Mas como é que seria isso?

MORENO – P…! Eu tô te falando!

JOÃO – Um k, na mão dele, até…agora! E ele esquece a gente…e a gente trabalha até o final do ano!

O Ministério Público Federal (MPF) explicou que o “Um K” mencionado na conversa significa R$ 1 milhão e Careca seria o apelido do deputado federal Francisco Floriano. O pagamento seria parte do valor devido ao parlamentar dentro do esquema.

O atual diretor do Into, André Loyelo, também preso, falou do deputado durante depoimento à Polícia Federal.

Ele disse que, depois de assumir a direção-geral do Into, foi procurado pelo operador João Batista em nome do deputado para solicitar favores, mas que rechaçou todas as tentativas de contato do parlamentar.

Um dos empresários que pagou propina no Into, Leandro Camargo, da empresa fornecedora Per Prima, revelou, no acordo de leniência, a delação premiada das empresas, que o deputado Floriano tinha poder de nomear pessoas para os cargos do Into.

Ele contou saber da influência do parlamentar em uma conversa sobre pagamento de vantagens indevidas com os operadores financeiros da quadrilha, João Batista da Luz e Rafael Santos Magalhães.

Leandro disse, então, que indagou quem seria essa pessoa. Rafael Santos Magalhães respondeu que seria “O outro”, referindo-se ao deputado Francisco Floriano.

Demissão

Em outra conversa gravada, Moreno conta para a mulher que havia sido exonerado do cargo de administrador-geral do Into – ele relaciona o deputado à demissão.

ESPOSA – Oi! Que que houve?

MORENO – Fui exonerado!

ESPOSA – Você?

MORENO – É!

ESPOSA – Mentira!

MORENO – Verdade!

ESPOSA – Saiu hoje?

MORENO – Agora!

ESPOSA – Não acredito!

MORENO – É! O Deputado mandou mensagem falando que quer falar comigo! Filho da p…! Nem ninguém sabia! Nem o (…) sabia! E botaram a tal da Renata no meu lugar!

Em outra ligação, o operador Rafael Magalhães e a mulher conversam, segundo o MPF, sobre o repasse de propina para o parlamentar.

RAFAEL – Pô! Sentei pra almoçar agora! Esfriar a cabeça! Tô no Centro!

SIMONE – Mas já falou com o deputado?

RAFAEL – Tô com ele direto!

SIMONE – Não! Cê disse que não ia falar! Hã? Já falou?

RAFAEL – Já! Ele tá me mandando aqui vários áudios gritando comigo!

SIMONE – Gritando amor! Mas por quê?

RAFAEL – Ué! Teve um que eu não repassei pra ele, né? Me expliquei! Já expliquei a ele o porquê!

SIMONE – Entendi! Ah! Então pera aí! Então você…o dinheiro que saiu, tu ontem não levou nada pra ele?

Em outro trecho, Rafael revela uma preocupação por tratar desses assuntos no telefone.

RAFAEL – Não! Amor! Não vamos falar isso por telefone não! Não!

Tudo isso aconteceu no mês passado. Mesmo depois da Operação Fatura Exposta, da Lava Jato, em abril do ano passado, que prendeu o ex-secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, que foi diretor do Into e empresários envolvidos no esquema de corrupção dentro do instituto.

A Polícia Federal afirma, em relatório enviado ao MPF, que as gravações telefônicas permitem comprovar que a organização criminosa instalada no Into estava em franca atuação.

ESPOSA – Esse Deputado é um ladrão! Um filho da p…!

MORENO – Eu sei! Eu sei!

Resposta

O deputado Francisco Floriano disse que não teve acesso aos autos e que desconhece o teor das conversas citadas. Afirmou, também, que nunca teve qualquer tipo de envolvimento com irregularidades e que sua atuação política é caracterizada pelo estrito cumprimento dos preceitos éticos que se espera de um homem público.

Ainda de acordo com o parlamentar, as indicações que faz no legítimo exercício do mandato sempre se caracterizaram exclusivamente por critérios técnicos.

O RJ 2 não conseguiu falar com os outros citados na reportagem.

Fonte: G1

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