A joia de Ipanema que Sérgio Cabral diz ser sua

RIO – Em um endereço nobre do Rio, a poucas quadras da Praia de Ipanema e da Lagoa, há um terreno de 150 metros quadrados vazio há mais de 15 anos. Mesmo diante da escassez de espaços livres como este na Zona Sul, não há sinal de que, dali, surgirá um empreendimento. Está escondido atrás de tapumes cobertos de cartazes de pessoas que prometem “êxito em seus problemas” e outros que dizem “faltou dinheiro aqui”. Por ironia, quem diz ser dono de metade daquela propriedade coleciona complicações com a Justiça e foi condenado por receber milhões em propina.

A propriedade já passou pelas mãos de donos conhecidos antes de ser da Ipanemabric Participações, de Georges Sadala, empresário que manteve vultuosos contratos com o governo do estado na gestão do emedebista por causa do Programa Poupa Tempo.

De tão abandonado, o único movimento por lá é de moradores de rua que, vez ou outra, tentam invadir e são expulsos por seguranças. Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, em 23 de maio, o ex-governador teve dificuldade de lembrar onde era a propriedade. Sua parte no terreno e em um prédio comercial da Barra, disse ele, nada mais foi do que acerto de propina.

— É um imóvel é próximo à (Rua) Vinicius de Moraes, na rua de trás da Barão da Torre — disse Cabral a Bretas.

A rua que o ex-governador tentou, em vão, puxar da memória é a Alberto Campos. É nessa via, esquina com a Rua Vinicius de Moraes, que está localizado o terreno. A propriedade já apareceu nos autos da Lava-Jato porque o Ministério Público Federal (MPF) desconfia que a transação de parte do imóvel foi usada por Sadala para lavagem de dinheiro. Ainda não houve sentença nessa ação sobre o empresário e Cabral.

Restaurante

Sadala nega as acusações e, em depoimento, afirmou que não dividia propriedade alguma com o emedebista. O objetivo do ex-governador ao falar sobre os imóveis “ocultos” é para, segundo afirmam fontes ligadas ao caso, que os bens sejam bloqueados e vendidos. Ajudaria, assim, a abater o que ele deve aos cofres públicos.

Antes de ser de Sadala, a propriedade estava em nome de uma empresa de Alexandre Accioly, da rede de academias BodyTech. Os dois se conheceram ainda na década de 1990. De acordo com a certidão de ônus reais, Accioly comprou o terreno no fim de 2009 por R$ 600 mil das mãos de Henrique Sérgio Goldberg, um dos ex-proprietários da Agenco Engenharia, responsável pela construção da Vila do Pan. Em junho de 2016, Accioly repassou por R$ 800 mil a propriedade para Sadala, que, em outubro do mesmo ano, vendeu 20% dela a outra empresa por R$ 5,5 milhões. Os outros 80% continuam com Sadala. Para o MPF, tamanha valorização em tão pouco tempo é indício de lavagem de dinheiro.

Accioly prestou depoimento ao MPF e à PF, mas nunca foi réu na Lava-Jato. Contou que foi uma “compra de risco” por causa de problemas financeiros do espaço.

O empresário queria construir um restaurante, mas o projeto não se viabilizou. Comentou com Sadala que venderia o terreno. O amigo se interessou. Além dos R$ 800 mil, Accioly declarou que Sadala assumiu a dívida de R$ 250 mil do imóvel. Afirmou que, em função de um problema judicial com a propriedade, a escritura definitiva saiu apenas em 2016. E só ocorreu depois que Sadala pagou R$ 2 milhões e ele R$ 500 mil para um credor do espaço.

Hoje, os 20% são da AEAC Investimentos e Participações. Um dos donos, Arthur Edmundo Alves Costa, foi alvo de condução coercitiva da Lava-Jato de Curitiba, na fase em que foi preso o José Dirceu. Ele nunca virou réu.

Fonte: O Globo

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